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O Museu
do Vidro é um projecto antigo e uma ambição da Marinha Grande. Constitui
simultaneamente um objectivo em matéria de afirmação identitária desta
população e uma infra-estrutura cultural, em torno da qual se geram
expectativas e se desenham potencialidades.
Portugal é, actualmente, um dos poucos países da Europa
que não possui um Museu público do Vidro. No entanto, esse desejo era já
acalentado em finais do Séc. XIX, e um jornal local faz-lhe referência em
1883, quando uma Sociedade Philomática defendia a criação de um museu escolar
do vidro.
Muito
mais tarde, o Decreto-Lei 39840, de 4 de Outubro de 1954, que extingue a
Nacional Fábrica de Vidros e cria a Fábrica Escola Irmãos Stephens, cria
igualmente, no seu contexto, um Museu (alínea b) do art. 51): <<Um museu
para exposição e conservação não só das espécies suficientemente
representativas da indústria vidreira nacional nos aspectos técnico e artístico,
como ainda de objectos de vidro produzidos no País em diferentes épocas, de
modo a patentear a evolução deste importante sector da indústria
nacional>>.
Nesse
sentido, ao longo dos anos a Fábrica Stephens foi reunindo uma colecção de
vidros e utensílios, a que se junta, no seu último período, uma colecção de
vidros artísticos resultantes de projectos únicos.
Por
seu lado, o Estado também nunca interveio de forma a dar consecução ao
projecto do Museu, apesar de, por várias formas, ter reconheci do o seu grande
interesse.
O
encerramento da referida fábrica em 1994, com consequente separação
definitiva da zona de produção da zona da antiga fábrica pombalina, permitiu
a constituição de um protocolo entre o Estado e a Câmara Municipal, no qual
se inclui a criação do Museu do Vidro.
O
Museu foi assim (re)fundado em 10 de Outubro de 1997, por decisão unânime da
Assembleia Municipal da Marinha Grande. No novo contexto, e apesar da inspiração
possível nos projectos anteriores, praticamente tudo teve de ser reequacionado.
O texto de fundação traça, em linhas gerais, as grandes orientações o Museu
e a sua organização.
Berço
da indústria do vidro e antigo centro nevrálgico desta comunidade, o local
onde agora se implanta o Museu é, por natureza histórica, um sítio, no
sentido etno-antropológico do termo. Para ele confluem feixes de significações
que constituem, em última análise, a estrutura histórico-identitária da
comunidade vidreira marinhense. Ultrapassa ainda os limites geográficos da
comunidade, dado que durante mais de dois séculos a fábrica marcou
profundamente a indústria do vidro em Portugal, quer pela sua produção, quer
pela mobilidade de operários entre fábricas situadas em diferentes pontos do
território. lança ainda fios internacionais, sobretudo, na Europa, pois não só
os seus fundadores eram estrangeiros (J. Beare era irlandês e G. Stephens, inglês),
como também vários operários eram oriundos de países europeus, nomeadamente,
ingleses, italianos e boémios. Esse “cosmopolitismo” é ainda hoje patente
nas representações identitárias marinhenses, esboçando-se frequentemente uma
ondulação das representações territoriais que ultrapassa a esfera local e
nacional.
O
Museu será implantado, nesta primeira fase, no
Palácio Stephens, antiga residência fundada por Guilherme Stephens,
industrial inglês que em 1769 consegue, através de Alvará Régio, o
restabelecimento da Real Fábrica de Vidros, título de privilégio que, em
1748, John Beare não logrou ter para sua fábrica, provavelmente no mesmo
local, que perdera com o turbulento encerramento da fábrica de Coina pouco
tempo antes.
Para
o efeito, decorrem desde Setembro de 1996 trabalhos de recuperação e adaptação
do imóvel, classificado de interesse público pelo Decreto 47508 de 24 de
Janeiro de 1967. O projecto de recuperação teve o aval positivo do IPPAR e o
restauro de certos elementos, azulejos e cantarias, tem tido o seu
acompanhamento e supervisão.
Por
outro lado, a concepção, organização e instalação do Museu têm implicado
um conjunto de estudos prévios, os quais conduziram à elaboração de um
programa museológico. Este programa procurou levar em linha de conta os
projectos anteriores mais credíveis e adequar-se, tanto quanto possível, às
intenções expressas peta Câmara Municipal. Igualmente, ao longo do processo
de instalação e elaboração do programa, procurou-se auscultar o maior número
de cidadãos marinhenses ligados ao vidro, e adequar o Museu à comunidade
local, com que terá de contar no futuro, não só em termos de público, como
no que respeita ao enriquecimento da colecção e à realização de exposições
e outras actividades.
O
Museu em constituição apresenta claramente uma vocação nacional, e pretende
ser uma referência nesse âmbito. Com um forte pendor investigativo e
educativo, dentro do seu tema maior, prosseguirá as suas actividades em torno
de eixos temáticos, que vão desde a história dos processos de produção até
às artes plásticas.
Por último, refira-se que,
apesar do enorme entusiasmo que existe sobre este projecto, não seda lícito
esconder as dificuldades que se podem deparar, designadamente financeiras, pelo
que se conta futuramente com o forte empenho das instituições, das empresas e
dos cidadãos em geral.
Orlando
de Carvalho
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