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O Rio Lis
Lá vem o Lis, saltitante e inquieto, a brincar com as areias doiradas do seu leito: lá vem o Lis, qual gaiato fresco e rabino, com as suas águas veleiras, a regar os milheirais verdejantes e as hortas e pomares floridos.( ... ) Riozinho de prata, de fragâncias campestres; doce rio de poesia e de mistério que inspiraste o bucolismo amoroso de (...) saudosos poetas.(...)
Como a minha infância anda presa ao cantarolar das tuas águas mansas; como a minha vida de hoje te recorda naqueles tempos distantes em que por ti navegava em frágeis barquinhos que mais não eram do que gôndolas de sonho e de ilusão! ... (..)
Dócil e menineiro, vens lá das cristas das serranias e as tuas correntes julgam poder galgar o infinito da distância.
Ilusão e desvario.
Aqui, na Foz, em vez dum amorável regaço, para descanso da tua marcha, encontras, antes, a guelra aberta dum mar imenso que te destroça e aniquila. (...) Resignadas ao viver lôbrego e soturno dos abismos, as tuas águas entregam-se ao Mar, confundem-se com ele, passando a fazer parte da mesma mole imensa e infinita. Contudo o teu fim é glorioso. O próprio Mar geme a tua dor, ao mesmo tempo que as sussurações da floresta e os violões plangentes dos ventos, te cantam a melopeia da nossa saudade (...) por esta Foz, doce enlevo dos meus olhos.
O Mar
Hoje o meu espírito volta-se para outra beleza enternecedora: o mar, o grande mar, com os seus humildes heróis pescadores, sem glória e sem nome.
(...) o mar da Vieira é como tantos outros: mau e traiçoeiro.
Quantas vezes, quantas! Tentados pela calmaria, os barcos se fazem ao largo, para serem, pouco depois surpreendidos pelo temporal. (...) E esses frágeis batéis de pinho, de proa recurvada, sobem heróicos na crista das ondas, descem ao abismo das vagas, surgem de novo, arfam, guinam e empinam-se como ginetes bascos! E o mar convulso espuma em acessos de cólera, vergasta os barcos em ímpetos de fera, fazendo-os ranger em todo o seu cavername. (...) Na praia, em grita louca, as mulheres (...) É que andar no mar é ter debaixo dos pés a sepultura...
O vento amaina... as nuvens dispersam... o céu veste-se de azul e o sol ressurge(...) A natureza como que sorri... já não se ouve o ramalhar dos pinheiros. E o Mar, cansado de desafiar o céu com a blasfémia colérica das suas ondas, é o último elemento que se tranquiliza. Está agora calmo e sereno. Foi a bonança que voltou.
As gaivotas aparecem de novo, mas em ar festivo, a saudar o sol que lhes alegra as penas a indo poisar sobre as águas, a bicar as sardinhas que passam em cardumes luzentes.
O Pinhal
Dirijo, finalmente, as minhas saudações às "matas de EI-Rei", cujos pinheirais são a grande cortina verde, a cortina infindável que separa a Vieira do mar e do Lis.(...) Tardes luminosas e serenas em que a mata parece meditar na grandeza do seu destino... a ufanar-se da glória de ter dado ao mar as naus e as caravelas que levaram a todo o mundo o abraço, a fé e o valor da gente portuguesa. (...)
Pedaços daquela paisagem ficaram para sempre em nós, numa visão de eternidade... Chegava-nos ao ouvido, através da harpa dos ventos, a velha canção do mar.. a eterna elegia das ondas... Os pinheiros, de perfil hierático, tinham o ar de quem escuta. Quando passávamos, dir-se-ia que se entreolhavam, interrogando-se...
Uns, já velhinhos, cobertos de musgo, de cabeleira desgrenhada, tateavam o espaço, procurando segurar a vida que lhes ia fugindo... Sombrios e tristes, pareciam eremitas a rezar a ladainha das suas mágoas. (...) Outros, transbordantes de seiva, em plena juventude, mostravam- se no esplendor de toda a sua força. Os seus troncos gigantes, oferecendo aos céus o troféu das suas verdes palmas, eram como lindos mastros reais. E as canções dos ninhos, o tilintar dos rebanhos, o perfume das flores, davam-lhes um encantamento de sonho... Outros ainda, no despontar da infância, alegres, pequeninos, denunciavam já o desejo de voar... (...)
Alguns pinheiros havia, de onde a resina escorria, gema aloirada e perfumada que mais parecia fios de âmbar. Outros estavam a ser derrubados pelos lenhadores.(...)
Quando o Pinhal está a arder
Espectáculo soberbo e horrível é um incêndio nas "Matas de EI-Rei!"
Começa, quase sempre, por uma pequena chama rasteirinha e humilde que se vai estendendo e alastrando pela manta vegetal até que, ansiosa por subir, mal encontra um pinheiro infante, logo se lhe enovela e o deixa em chamas; e continua, atraída por outros pinheiros mais altos, a que se abraça em volúpias ardentes, seguindo, inexoravelmente, o seu trágico destino até entrar no pinhal cerrado, onde se desdobra e multiplica em outras chamas que, em movimentos coleantes de serpente, se cruzam e recruzam num crescendo alucinante, iluminando a floresta e conquistando-a com seus colossais braseiros! (...) De braços abertos, num desespero aflitivo, os pinheiros como que pedem socorro para o suplício que os atormenta. E, pela voz do vento, toda a floresta se lamenta e chora.(...)
Tudo o que fica dito são impressões que eu não pude deixar de fixar. São muito de mim próprio e traduzem as emoções [sentidas ao contemplar] as inefáveis belezas do Mar, do Lis e da Floresta que dão à minha terra o melhor do seu encanto. (...)
Enquanto o meu espírito mergulhava nas brumas do passado (...) lá ao longe, na torre da Vieira, o sino batia calmamente Avé-Marias, convidando os fiéis à oração. Nesse instante, em que a elegia da tarde era propícia a evocações, à minha mente vieram aqueles versos de D. Deniz:
"Ay flores, ay flores do verde pino"
É que me parecia ouvir também chorar de saudade, a alma do velho rei lavrador, a gemer .. como o enorme pinheiral a que deu vida...!
*) Conhecedora da obra de Vergílio Guerra Pedrosa. São da sua autoria os intertítulos que aqui encimam os trechops de
Pedrosa.
Para Cima...
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