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Biografia

Fernando de Jesus Rodrigues

 

Fernando de Jesus Rodrigues

SER COBRADOR "NÃO É PÊRA DOCE"

COBRADOR de porta em porta há mais de vinte anos, o nosso Ilustre admite que, fazer cobranças, "não é pêra doce", mas, tem arranjado grandes amizades, nestas andanças.

Fernando de Jesus Rodrigues, nasceu no lugar de Trutas, a 15 de Outubro de 1925.

Na época, os pais possuíam terrenos que demoravam 15 dias, só a lavrar, no entanto, a ida do pai para o Brasil, sozinho, deixou a família desprotegida para pagar as dívidas que por cá deixou.

Tinha cerca de um ano, quando o pai pediu 3.500$00 a juros de 20%, para se ir embora.

Do lado de lá do Atlântico, vieram apenas duas cartas e durante dois anos, a mãe, trabalhou na terra para pagar os juros da dívida, até que um dia espetou uma forquilha num pé e viu-se impedida de trabalhar durante quase um ano.

Possuidora de uma procuração, a sua mãe, vendeu os terrenos em troca da dívida, com a condição de lhe fazerem uma casa, onde pudesse morar com, os quatro filhos.

Do pai, guarda apenas uma fotografia tirada na Guerra de França.

Com cerca de 6 anos, o nosso Ilustre foi "servir" para casa da avó paterna, que tinha um moinho a água. Ali, moía o milho e o trigo e o pequeno entregava os sacos da farinha em casa das pessoas.

Aos 7 anos, foi para a escola em Albergaria. Andava lá há um mês, a avó disse-lhe:" "menino tens de ganhar aquilo que comes, tens de sair, da escola".

Com a avó, aprendeu a cultivar, nas terras onde ela trazia mais de seis pessoas a ganhar 2$50, por dia e comida. Aprendeu a fazer comida e passou a ser ele a fazer a comida para os trabalhadores.

Aos 10  anos, foi para a Ricardo Gallo, fechar o molde, para receber 3$00, por dia, a trabalhar por turnos, sem entrar na folha por causa da idade (só entrava na folha com mais de 12 anos).

Aos 12, foi para a J. Ferreira Custódio e com cerca de 15 anos, fazia "catraios", por todas as fábricas de vidros, por causa das cores, para fazer berlindes. Recebia $20 por cada cento.

Aos 16 anos, foi estudar para a escola nocturna, frente ao Museu Joaquim Correia, mas como entrou para a M.P.R. para trabalhar por turnos, teve de abandonar a escola, acabando a 3ª classe no curso dos adultos e apenas aos 39 anos, completou a 4ª classe.

Para isso, foi para o Zé Bernardes, na Ordem, um senhor que trabalhava na Ivima e ensinava pessoas, para o exame da 4ª classe. Passou logo à primeira.

 Reformou-se aos 51 anos, por problemas nas costas, quando era oficial na M.P.R.

As cobranças, surgiram aos 52 anos, tem trabalhado para várias casas entre as quais conta o JMG, para quem chegou a cobrar toda a M.ª Grande, Vieira e Pilado, volta que fazia com a motorizada que o JMG possuía.

As cobranças, foram o complemento para a baixa reforma, admite o cobrador que, "ao princípio foi muito difícil", porque tinha pessoas que o mandavam ir lá a casa várias vezes e não o atendiam, mas foi-se habituando e agora já conhece os truques de quem não quer pagar.

Recorda que, andou durante 3 anos, para receber uma conta de nove contos.

0 truque para receber as contas, é "insistir", até porque, "não pede nada que as pessoas não devam" e o dinheiro não é para ele, o pior, é ter de o fazer apenas depois das 18 horas.

Apesar de o cobrador, não ser bem visto por algumas pessoas e ter arranjado algumas inimizades, também admite que, tem ganho muitos amigos, que o respeitam.

 São muitas as vezes, que vê as pessoas em casa e não abrem a porta, outras, espreitam pelo óculo, ele vê os pés debaixo da porta, mas não abrem. Com o avanço da idade, "tem deixado algumas cobranças para descansar um pouco" e agora acaba por ser apenas uma ocupação.

Por ser mais prático, anda sempre de bicicleta, mas "não há condições" para isso porque há muito trânsito e as valas que existem nas bermas não ajudam a circulação, além disso "alguns automobilistas não compreendem as bicicletas".

Ainda está disposto a continuar este "servicinho", que serve para o distrair, pelo menos enquanto puder.

A.C.

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
      (edição de 16 de Março de 2000)

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