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Biografia

Angelino Sousa Gabriel

 

 

EXECUTOU À MÃO O MAQUINISMO DE SEIS RELÓGIOS DE SALA

Apesar de contrariado, por não ser da sua vontade dar a conhecer o seu trabalho o nosso Ilustre desta edição, acabou por permitir que executássemos este trabalho apenas porque os filhos e a esposa o incentivaram, porque diz, "não fiz isto para as pessoas verem".

Do seu ponto de vista, "não fez nada de especial", mas depois de analisarmos e observarmos o trabalho que saiu das suas mãos, achámos que pela sua grandiosidade não devia ficar no anonimato.

E mais, desafiamos os nossos leitores a denunciarem quem é que executa, à mão, o maquinismo para um relógio de sala, quanto mais para meia dúzia, como o nosso Ilustre.

A ideia, surgiu em 1985, quando pensou em fazer um relógio de sala, para cada um dos três filhos, mas logo depois pensou, que seria complicado para os netos dividirem os relógios e daí a ideia de fazer um para cada neto, que são seis.

As peças, para o maquinismo do primeiro relógio, foram feitas em latão, mas acabou por não as aplicar substituindo-as por peças em cobre, material que utilizou para todos.

Reconhece que "é tudo muito difícil de fazer", mas "com força de vontade cia e capricho", tudo se consegue.

Deu-nos como exemplo uma pequena roda dentada, que em qualquer empresa pode demorar uma ou duas horas de trabalho e nas suas mãos tem trinta a quarenta horas.

Reconhece que é difícil contabilizar a despesa, porque desenvolveu o trabalho, durante muito tempo e não registou todos os gastos, apenas tem de memória 30 contos em bronze de uma vez e não consegue calcular o tempo gasto, nem as ferramentas que estragou, como por exemplo as minúsculas serras.

Aponta para cerca de um ano de trabalho para cada um dos relógios.

Angelino Sousa Gabriel, nasceu na casa onde hoje mora, no coração da M.ª Grande, em 1923, tinha mais 2 irmãos.

O pai, era proprietário da ourivesaria, que ainda hoje existe e no mesmo edifício,  havia mercearia e loja de tecidos, que já vinham do tempo dos avós.

Depois de concluir a 4ª classe, no edifício onde esteve até à pouco tempo a Polícia,    foi para a Escola Industrial, mudando-se depois para a Escola Comercial e Industrial  de Leiria, onde terminou os estudos.

Chuvesse ou fizesse sol, ia de bicicleta com outros jovens da época, entre os quais o Valverde e o Dr. Vareda.

Inicialmente de dia, depois de noite, para de dia, aprender a arte de relojoeiro, com o Sr. Herculano.

Quando rapaz, aprendiz, dizia "um dia hei-de fazer um relógio", dito a que o Sr. achava muita graça e não ligava nenhuma importância.

Livrou à tropa e ficou a ajudar o pai na ourivesaria, mais tarde, entrou para o Banco Magalhães, agora BPA mas sempre mexeu nos relógios.

Um dia, comprou um relógio de bolso, com a caixa em prata a que faltavam várias peças, mandou-o para a fábrica na Suíça para que lhe colocassem uma nova maquinar­ia, no entanto devolveram-lho na mesma. Insistente, o Sr. Angelino, executou ele próprio as peças e o relógio ainda hoje trabalha.

Este, foi sem dúvida o grande incentivo para que pensasse noutros trabalhos.

Conhecedor exímio do interior de qualquer relógio, de corda prepara-se para colocar um peso maior em cada um dos relógios que está a concluir, para que estes tenham o dobro da corda e possam aguentar dez dias.

Apenas o corte das placas para as rodas, não foi feito por si, assim como as caixas em madeira, que são todas iguais e foram desenhadas por Júlio Castro, que executou a primeira.

Apesar de ter muitos pedidos para fazer outros relógios, Angelino Gabriel, não aceita nenhum.

Ainda não desistiu de executar um relógio, baseando-se num que tem mais de 200 anos da sua vontade dar a conhecer o seu trabalho,  porque as diferenças existentes no maquinismo fascinam-no.

A. C.

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
      (edição de 15 de Junho de 2000)

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