MARINHA GRANDE                         

Biografia

António Guerra

 

António Guerra

António Guerra, de seu verdadeiro nome António Baptista, foi um dos homens a quem a história e a lenda perpetuarão para sempre na memória do movimento revolucionário operário do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande. Terá nascido em 23 de Junho de 1913, desconhecendo-se com exactidão e existindo até alguma controvérsia sobre o seu verdadeiro local de nascimento.

Numa certidão de idade emitida pela Conservatória do Registo Civil de Coimbra, é dado como natural daquela cidade: << Às seis horas e quinze minutos do dia vinte e três do mês de Junho do ano de mil novecentos e treze, na Rua do Carmo, Freguesia de Santa Cruz, desta cidade, nasceu um indivíduo do sexo masculino, a quem foi posto o nome de António Baptista, filho ilegítimo de Maria da Conceição, solteira, de trinta e sete anos de idade, doméstica, natural da Freguesia de Pias, Concelho de Ferreira do Zêzere, domiciliada na dita Rua do Carmo, neto materno de Fortunato Baptista e de Antónia Rosa. Fez a declaração a mãe do registando. Foram testemunhas presentes desde seguida, Francisca da Conceição Esteves da Costa, solteira, maior, empregada na maternidade, desta cidade, onde está domiciliada, que declarou quer ser considerada como madrinha do registando; Pedro da Costa, casado, guarda número trinta da Polícia, Civil desta cidade, onde está domiciliado, na Travessa da Rua da Matemática, e Manuel Matias, casado, guarda número cincoenta e seis da Polícia Civil desta cidade, onde está domiciliado, na Rua Joaquim António de Aguiar ... >>  

Este assento de nascimento, realizado e datado em 17 de Julho de 1913, foi efectuado tardiamente como provam as datas, pelo Conservador Eduardo Saldanha da Silva Vieira. Em 27 de Maio de 1924, quando António Guerra já contava quase 11 anos, o assento foi novamente conferido pelo então Conservador do Registo Civil de Coimbra, Eduardo de Miranda Vasconcelos que mandou emitir a atrás citada Certidão de Idade por motivos ligados possivelmente ao pedido de obtenção de algum documento, talvez relacionado com a admissão de António Guerra ao exame da 4.' Classe: << conferida está conforme. Coimbra, 2 7 de Maio de 1924. >>  

Existem algumas discrepâncias entre o teor do assento oficial de nascimento e as memórias orais que subsistiram até hoje. Sua irmã, llda da Conceição  afirmou sempre categoricamente ter o seu irmão António nascido na Guia, localidade situada a meio caminho entre a Marinha Grande e Figueira da Foz,- durante uma época em que o pai de ambos ali teria permanecido a trabalhar na sua profissão de., pedreiro de fornos de vidro, na Fábrica de Vidraça que existiu naquela localidade, a Empresa Vidreira do Oeste, Ldª. Contudo, também retém algumas memórias de ter ouvido sua mãe recordar passagens de haver estado em tempos a servir como empregada doméstica em Coimbra, o que parece comprovar a veracidade do documento acima transcrito, embora levando sempre em conta o facto de os registos civis em Portugal terem um passado de tradição pouco rigorosa, com os registos de nascimentos, por vezes, a serem efectuados com anos de atraso ou até inexistentes em algumas freguesias rurais.

Por sua vez a ficha cadastral de António Guerra, elaborada pela PVDE  quando da sua prisão em 1934, aponta o Lugar do Salgueiro, Marinha Grande, como naturalidade, enquanto o Jornal O Mensageiro aponta << como chefes do movimento e fabricantes de bombas, um tal Amarante, alfaiate, e um Guerra, natural da Figueira da Foz ... >>

Seu pai, António Ferreira Guerra, natural de Buarcos, tinha a profissão de pedreiro de fornos de vidro. Nunca terá chegado a contrair matrimónio com Maria da Conceição, a qual tinha já uma filha - Deolinda - de anterior relação. Da sua ligação nasceriam António e lida, baptizados ambos como filhos ilegítimos, de pai incógnito, uma situação muito frequente na época. Ilda seria perfilhada já após a idade adulta, o que não aconteceria com seu irmão, embora ambos tenham usado regularmente o apelido paterno em todos os seus actos civis e pelo qual sempre foram publicamente designados e reconhecidos.

Os avós paternos de António Guerra foram Manuel de Abreu Guerra e Constância Ferreira Costa. Existem algumas memórias que parecem indicar estar esta família dos Guerras de Buarcos ligada ao fabrico de fomos de vidro desde meados do século XIX. A região da foz do Mondego tem tradições no fabrico do vidro, desde a primeira fábrica de vidraça de Buarcos, fundada em 1855 por André Michon, também proprietário da Fábrica de Vidros Portuense, passando pela Fábrica de Vidros do Cabo Mondego, fundada em 1870; pela Fábrica da Morraceira (Vidreira Mecânica do Mondego, Ldª.) que trabalhou até à relativamente poucos anos atrás e pela Empresa Vidreira da Fontela, actual Vidreira do Mondego, S.A.

No princípio do século XX assistiu-se a uma grande movimentação do proletariado rural e industrial em busca de trabalho e melhores condições de vida. Portugal estava ainda no início da sua “revolução industrial", atrasado quase meio século do resto da Europa desenvolvida. Na indústria do vidro era usual e frequente os operários especializados deslocarem-se ao sabor do encerramento de umas fábricas e da abertura de outras. Isso terá acontecido com a família do pedreiro António Ferreira Guerra, movimentando-se entre Buarcos, Guia e Marinha Grande, onde se estabeleceu cerca de 1915, empregando-se na reconstrucção do forno da fábrica de vidros de Almeida Morais & Cª. Ldª. numa altura em que a indústria de vidros nacional prosperava, beneficiando da paralização quase total no resto da Europa, envolvida na I Guerra Mundial que se arrastaria até 1918.

Ao chegar à Marinha Grande a família instalou-se numa pequena casa alugada no lugar do Salgueiro, perto da Fábrica Almeida & Morais, na rua que após o 25 de Abril de 1974 receberia o nome de António Guerra em homenagem à sua vida de lutador antifascista, tendo o chefe da família dado entrada nessa fábrica, onde trabalharia até à idade de reforma, primeiro como pedreiro de fornos e nos últimos anos como guarda portão.

Se o período da guerra foi urna época de prosperidade para a indústria vidreira nacional, nos anos seguintes foi-se acentuando uma recessão progressiva provocada pela recuperação dos mercados estrangeiros ressurgidos dos escombros da guerra, mas principalmente pela concorrência desleal e desenfreada particularmente entre as fábricas produtoras de garrafas, que produziam sem o mínimo de regras de mercado. Ressentiu-se imediatamente a indústria de vidros nacional, especialmente a Marinha Grande, onde o fabrico da garrafaria dependia inteiramente da habilidade manual dos seus operários, cujas Associações Sindicais travavam uma luta feroz contra o patronato, tentando evitar a importação de maquinaria, receando que essa investida do progresso, ao acelerar o ritmo de producção pudesse criar ainda mais desemprego. O patronato por seu lado também tentou organizar-se, estabelecendo cotas de produção através de uma Convenção assinada pelos fabricantes de garrafas pretas.

A crise avolumar-se-ia e o operariado resvalaria para uma situação de indigência que iria tornar-se quase crónica por finais dos anos 20, quando da grande recessão mundial que fragilizou gravemente os grandes mercados, com a agravante ainda, no caso da indústria de garrafaria portuguesa, da revolução que deflagrou no Brasil em 1930 ter obrigado à paralização da exportação para aquele país, então um dos grandes clientes da garrafaria fabricada em Portugal.

Apenas a cristalaria ia sobrevivendo sem grandes sobressaltos. A fome e a tuberculose assentaram arraiais na Marinha Grande, perante a inépcia e a absoluta incapacidade do Estado, agravando-se ainda mais a miserável situação da classe operária com o profundo desprezo e alheamento do patronato perante a calamidade que se abatia sobre a população.  

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Foi neste meio recheado de lutas laborais que António Guerra cresceu e tomou consciência das desigualdades sociais. Por meados de 1920, o ensino escolar de que teve a fortuna de beneficiar era ainda um luxo. Contavam-se pelos dedos de uma mão os poucos filhos de vidreiros que a ele tinham acesso. A maioria dos miúdos eram obrigados a entrar para as fábricas em idades compreendidas entre os seis e os oito anos, tornando-se alvos privilegiados da tuberculose e das doenças profissionais.

À margem desses problemas e apesar das fracas posses do agregado familiar, o pequeno António frequentou a escola primária local tendo revelado excelentes dotes de inteligência e viva aplicação na aprendizagem das letras e da matemática, embora atormentado desde tenra idade por uma precoce e progressiva miopia que o levaria a partir dos 30 anos à quase completa cegueira. Ainda na escola usava já óculos de elevada graduação, motivo porque era conhecido entre os seus colegas de infância pelo "Guerra dos óculos".

Os seus pais eram profundamente católicos incutindo no ambiente familiar os valores da educação e da moas, cristã. Paralelamente à escola primária frequentava a catequese na Paróquia local juntamente com as suas irmãs lida e Deolinda, onde era considerado o melhor aluno e sendo mesmo chamado a acolitar o pároco local, à época o Padre Perdigão, nas celebrações religiosas e litúrgicas. Segundo a irmã Ilda, o Padre Perdigão, vendo florir no jovem invulgares dotes literários, raros entre os poucos miúdos vindos do operariado que frequentavam a igreja, chegaria a propôr aos pais o seu encaminhamento para um Seminário onde pudesse estudar e seguir uma possível carreira eclesiástica, o que não chegaria a acontecer graças a um incidente desagradável protagonizado pelo petiz, fomentado pelo professor primário, professor Pereira, que leccionava então na Escola Primária da Marinha Grande. O professor Pereira era um republicano e anticlericalista ferrenho que detestava o Padre Perdigão, incutindo as suas ideias aos alunos, contando-lhes anedotas e ferroando nas costas do Padre sempre que para tal achava ocasião. O adro da Igreja ficava mesmo ao lado da escola primária e nos períodos de recreio a pequenada costumava ir para ali brincar. Um dia, estaria o Padre Perdigão a tomar os seus apontamentos na sacristia, quando um grupo de miúdos entre os quais estava António Guerra desatou inconscientemente a chamar-lhe "pápa hóstias" no meio de grande algazarra. Isto valeu-lhe um par de açoites do pai e o afastamento dos serviços religiosos, causando-lhe uma grande revolta. Deixou de frequentar a igreja e fazia os possíveis para forçar a irmã mais nova Ilda, a fazer o mesmo, esperando-a aos Domingos ao meio do caminho, procurando forçá-Ia a não ir à missa, apesar dos vários castigos do pai e dos rogos da mãe que o repreendia constantemente.  

As suas extremas dificuldades de visão terão sido seguramente o factor impeditivo de ingressar no trabalho do vidro como a maioria dos seus colegas de juventude. Terminada a instrucção primária entrou como marçano para uma loja de mercearias, chegando a deslocar-se para Buarcos, terra natal de seus avós paternos, onde exerceu também essa profissão. Por finais dos anos 20 entrou para o serviço da fábrica de vidros Ricardo dos Santos Gallo como empregado de escritório, onde trabalharia escassos meses, terminando por ser despedido motivado a desinteligências com o chefe do escritório dessa fábrica, Francisco Correia Moita.

António Guerra já por essa época havia aderido às então chamadas ideias avançadas ou comunistas. Tinha crescido a conviver com outros jovens rebeldes e fartos de miséria; Juntamente com José Gregório, Manuel Domingues e a esmagadora maioria dos revolucionários do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande, cresceram à vista uns dos outros, entre o Salgueiro, o Casal Galego e as Almuinhas. Todos eles admiravam e foram influenciados por um homem, político e sindicalista notável na defesa do operariado e dos oprimidos: Armando Correia de Magalhães, grande orador e organizador, o homem do vidro mais considerado pela classe operária vidreira durante aquela época conturbada, devendo-se-lhe a iniciativa da fusão das diversas Associações de Classe num só sindicato vertical da indústria vidreira, assim como a primeira experiência de Assistência Social como hoje a compreendemos, levada a cabo pelo SNTIV extinto em 31 de Dezembro de 1933.

Apaixonado pela leitura dos humanistas, António Guerra adquiriu uma notável cultura que o tornava respeitado pelos seus correligionários e conterrâneos. Analista privilegiado da miséria e doença que campeavam ao seu redor, cedo principiou a revoltar-se e a tentar lutar contra um regime tornado mais odioso e difícil de suportar a cada dia que passava, com a população de indigentes, pedintes e tuberculoses a crescer assustadoramente. As tensões sociais despoletavam-se constantemente e as suas atitudes de revolta perante as injustiças a que era obrigado a assistir levaram-no a envolver-se em diversas lutas em conjunto com o operariado, razões determinantes para o seu despedimento da fábrica de Ricardo Gallo. Da sua personalidade, profundo humanismo e sentido de solidariedade, é expressivo um dos muitos episódios que frequentemente protagonizava, ocorrido durante o seu curto período de trabalho na fábrica de vidros de Ricardo Gallo.

Quando um dia caminhava apressadamente pela pequena congosta que subia da fábrica em direcção a sua casa, para almoçar, cruzou-se no caminho com um velho mendigo que por ali costumava esmolar de porta em porta, o "Joaquim da Grila". Este acabava precisamente de abandonar a porta da casa de seus pais, de sacola ao ombro, arrastando-se apoiado ao cajado. Chegado a casa perguntou a sua mãe o que havia dado de esmola ao pedinte. Ao escutar a explicação da mãe, a qual argumentou nada ter dado, por ter em casa apenas um pouco de pão para o filho acompanhar o pequeno tacho de sopa que aquecia ao lume do fogareiro, António repreendeu a mãe, perguntando-lhe o que andava a fazer na igreja todos os domingos, pedindo-lhe para nunca mais deixar partir o pobre sem almoço por sua causa. Da próxima vez desse metade da sua sopa ao "Joaquim da Grila" pois o tacho da sopa dava perfeitamente para os dois.

Dotado de forte personalidade, a miséria sofrida pelos desfavorecidos provocou em António Guerra a determinação e a vontade de lutar em defesa dos interesses e da união dos trabalhadores do vidro, fazendo suas as palavras de Armando Correia de Magalhães e dos sindicalistas que lutavam para reunir a classe num só sindicato defensor da generalidade dos trabalhadores. Exerceu grande influência junto do operariado quando da criação do SNTIV, desenvolvendo aí notável actividade, nomeadamente de índole cultural, chegando inclusivamente a ministrar aulas nocturnas de alfabetização de adultos durante o período em que esteve desempregado, ajudando o professor oficial contratado pelo Sindicato no apoio aos miúdos empregados nas fábricas de vidros, impedidos de frequentarem a escola oficial, os quais usufruíam das aulas gratuitas dadas extraordinariamente no período pós-laboral, única possibilidade de irem à escola e onde muitos filhos de operários, alguns em conjunto com os pais, aprenderam a ler. 

Alguns desses jovens recordam carinhosamente António Guerra, não esquecendo os bocados de broa que levava para a aula, escondida nas algibeiras - quando a tinha - e que cortava com um canivete em pequenos pedacinhos rigorosamente iguais, repartindo-os entre todos os seus alunos, ajudando-os a enganar a fome.

Desempregado nos difíceis anos de 1931 e 1932, à semelhança de centenas de operários vidreiros apanhados nas malhas de enorme recessão que se abatia sobre a indústria, António Guerra ver-se-ia forçado a trabalhar na abertura de estradas florestais, trabalhos esses patrocinados através de verbas disponibilizadas pelo Governo, na tentativa  de acudir ao desemprego crescente e procurar remediar a grave situação vivida pelo operariado e pelos assalariados rurais.

Cumprindo jornadas de trabalho extremamente violentas, desmatando e nivelando o terreno usando processos puramente manuais, através das dunas, num trabalho arrasador, o Administrador do Pinhal Nacional Eng.º Arala Pinto, apoiado pela maioria dos bem pensantes da época, pretendia utilizar essa mão de obra quase escrava conforme os seus critérios muito pessoais, aos quais os vidreiros deviam ainda ficar agradecidos.

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O jornal O Mensageiro de Leiria, escrevia na sua edição de 7 de Novembro de 1931:

<<A importante verba de 200 contos, concedida pelo Governo da Ditadura a pedido do sr. Tenente Silva Mendes, então Governador Civil do Distrito de Leiria, para serem abertos trabalhos na Mata Nacional e assim se procurar acudir à crise da classe vidreira, encontra-se esgotada. Dispendida na abertura de novas estradas, que muito vão beneficiar e valorizar a Mata Nacional, aquela verba não podia ter melhor aplicação, nem outra forma havia de acudir à crise dos operários, a não ser que se quisesse recorrer ao aviltante regime de subsídios a homens válidos, fazendo da crise um modo de vida.

Duas coisas registámos na concessão desse subsídio de que abertamente discordamos:

1º. - Foi o pedido de concessão de 8 horas de serviço num trabalho que não sofre confronto com o das fábricas, pois no trabalho executado no Pinhal os operários recuperavam a saúde e forças dispendidas junto dos fornos.

2º. - Também não concordamos com a admissão de pessoal que não seja genuinamente vidreiro ... >>

Quando os vidreiros, em uníssono com milhares de vozes em todo o país, reivindicaram jornadas de trabalho de 8 horas, o senhor Administrador do Pinhal Nacional, que muito humanamente enviava os pequenos operários a estranhos banhos de praia, de enxada e picareta às costas, ofendeu-se e em belas tiradas de elegante prosa acusava os operários de ingratos, ele, o magnânimo Chefe da 3ª Circunscrição Florestal onde <<... tinha havido o cuidado de, dentro do possível, pôr o operário vidreiro, junto do local de trabalho, poupando-o às longas caminhadas ... >>

Os operários em trabalhos no interior do pinhal tiveram de lutar para conseguirem a permissão da utilização do comboio florestal nas idas e vindas do trabalho. Essa reivindicação foi constantemente rejeitada por Arala Pinto até o operariado tomar medidas de força.

<< ... e assim, numa acção de magnífica unidade, muitas dezenas de operários se lançaram em greve e fizeram uma marcha desde o lugar do trabalho, no interior do pinhal de Leiria até ao centro da Marinha, indo depois em concentração à repartição das Matas Florestais apresentar as suas reivindicações. Em resultado dessa luta conseguiu-se melhoria de salários, obter transportes para ida e regresso do trabalho no comboio das matas passando o trabalho a revestir aspectos de menos escravatura ... desta vez o operariado apareceu à luz do dia cansado de tanta exploração e miséria, com mais consciência da sua força, mais unido... à cabeça deste movimento estiveram António Guerra e outros militantes operários ... >>

Esta manifestação foi o primeiro grande movimento de massas com características exclusivamente reivindicativas efectuado na Marinha Grande pelo operariado vidreiro. Por essa época o número de vidreiros desempregados ultrapassava o milhar, com todas as consequências sociais e económicas que possam imaginar-se. O espectro da fome ameaçava centenas de lares e a tuberculose continuava a subir numa progressão assustadora, grassando entre as famílias mais miseráveis, sem qualquer recurso de subsistência.

Desenvolvendo enorme actividade neste terreno propício à conspiração política contra a Ditadura, António Guerra, José Gregório e Manuel Domingues, em meados de 1932 assumiriam o funcionamento do Comité da Região do Oeste, a célula clandestina dos comunistas dentro da sua própria organização junto do operariado vidreiro. Após os tumultos de Setembro de 1932 tiveram de passar à clandestinidade. Manuel Domingues e José Gregório fugiram para Espanha, juntando-se durante algum tempo aos exilados de Pontevedra. Perto do 1º de Maio de 1933, Armando Correia de Magalhães e outros dirigentes da Direcção expulsa do Sindicato em Setembro de 1932 fugiram por sua vez para Espanha, pondo-se a salvo.

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António Guerra ficou na Marinha Grande recusando-se a fugir!

Referenciado pela polícia política pela sua acção na organização da greve dos Roldões em 1932 e nas reivindicações dos operários da Fábrica Marquês de Pombal, em Setembro de 1933, passa a ser constantemente vigiado, chegando a andar a monte por algum tempo, escondendo-se em casa de amigos, no Casal dos Claros, ou passando dias inteiros escondido mesmo nas barbas dos seus maiores inimigos, no Ponto da Boa Vista, onde João Pedroso Tojeira, garrafeiro desempregado, fazia turnos de vigilância na prevenção de fogos florestais durante o verão de 1933. Era nesse local que António Guerra pernoitava a maioria das vezes quando pressentia o cerco da polícia. Por essa altura o operariado já possuía os seus mecanismos de defesa própria e numa terra onde uma cara desconhecida era logo referenciada, movimentava-se imediatamente uma teia de operários e familiares em defesa do "Guerra dos óculos".

Os Pides vinham rondar a casa geralmente de madrugada. Sua mãe e irmãs pressentiam passos à volta da casa, rondando. Por vezes a vida assumia uma quase como que normalidade e quando o operariado andava mais tranquilo os Pides efectuavam uma breves visitas de "cortesia", apenas para controlar os acontecimentos. O problema era não avisarem quando as faziam o que poderia revelar-se perigoso.

A casa onde a família habitava tinha um pequeno quintal com o seu poço de rega e para serviços domésticos. Um dia, a meio da manhã, a jovem lida estava junto ao poço, situado nas traseiras da casa, no quintal do Ti' Henrique da Adélia, lapidário na Fábrica Nova, cujo quintal os Guerras amanhavam. Dentro de casa o irmão, na altura desempregado, entretinha-se a carpinteirar uma pequena caixa de madeira para enterrar uns panfletos clandestinos que tinha em cima da mesa da cozinha e haviam sido já motivo de basta discussão entre mãe e filho, esta sempre com o credo na boca não fosse aparecer a polícia com o filho naquelas andanças. lida recorda- se bem de ouvir sua mãe a ralhar com o irmão por causa do monte de papéis que este despreocupadamente folheava. A cozinha ficava nas traseiras da casa para o lado do quintal e lida tinha assistido à cena desde o poço a uns vinte ou trinta metros de distância. Viu a mãe sair da casa em direcção a si ainda a ralhar com o irmão e preparava-se para interceder por ele, como sempre fazia, quando viu dois homens estranhos a aproximarem-se da casa. Sua mãe ter-lhe-à notado a aflição no rosto pois virou-se e desatou a correr para a casa. Entrou na cozinha, arrebanhando os papéis que estavam em cima da mesa, correu para o pequeno telheiro junto ao galinheiro onde guardavam as alfaias do amanho do quintal e as lenhas, enfiou-os para debaixo de um monte de carumas e voltou a correr para junto do poço juntando-se à filha a lavar roupa. Nesse preciso momento um dos pides assomou à porta da cozinha galhofeiro a dar-lhes uns bons dias trocistas. Ilda aproximou-se da casa em companhia da mãe, fingindo-se admirada, perguntando se havia alguma novidade. Especado no meio da cozinha, António Guerra, atónito, olhava a mesa vazia, após os polícias abandonarem a casa, perante o riso da irmã e o choro aflito da mãe que pressentia o triste destino que o esperava. Mil vezes lhe rogara para abandonar a política, mas o destino de António Guerra estava traçado: a morte no Tarrafal !

in: Alvorada de Esperança (notas biográficas)

- de Hermínio de Freitas Nunes

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