MARINHA GRANDE                         

Biografia

Álvaro Domingues Júnior

 

 

Nascido a 3 de Janeiro, de 1929, no lugar dos Outeirinhos, na Mª. Grande, Álvaro Domingues, dedica-se há mais de 30 anos à música. Acompanhado pelo seu irmão integra o grupo "Irmãos Domingues", que tem vindo a acompanhar muitos fadistas.

Com apenas mais um irmão, o nosso Ilustre é filho de um vidreiro que trabalhava no Ricardo Gallo.

O pai, foi detido em 18 de Janeiro de 1934, ficando preso durante dois anos, na Trafaria, Ilha do Corvo e Peniche.

Essa época marcou bastante o nosso Ilustre, que tinha apenas 5 anos de idade e não esquece a revista que a polícia fez, à casa onde moravam, nem grande quantidade de tropa que andava pelas ruas da Marinha.

Ainda se lembra de ir de barco visitar o pai, talvez na Trafaria.

Quando foi libertado, o pai, logo começou a trabalhar na fábrica Lumiar, que fazia lâmpadas.

Mais tarde, veio novamente para a Ricardo Gallo, mudando depois para a Fapai, uma fábrica de lâmpadas criada por um grupo de holandeses que o convidaram pelo seu conhecimento no fabrico.

A mãe, era doméstica, enquanto nova empalhava garrafões no Ricardo Gallo, mas, depois de casar deixou a fábrica.

Álvaro Domingues Júnior, frequentou a escola primária onde foi aluno do professor Garcia, que ainda é vivo. A escola funcionava no edifício onde esteve a polícia, até à pouco tempo, os rapazes andavam na parte de baixo enquanto as raparigas frequentavam o andar superior.

Guarda na memória um episódio passado num belo dia de escola, quando foi encontrado um papel com uns dizeres, que, após aturada análise à letra dos alunos, segundo o director na época, o professor Gil, concluíram ser ele o autor do escrito, cujo conteúdo ainda hoje desconhece.

O castigo, foi uma monumental tareia, que o deixou bastante ferido, tinha 7 anos.

Apenas o seu professor, veio a confirmar que realmente o nosso convidado estava inocente.

Agora, gostava de dizer ao professor quem foi o autor do escrito em causa, porque o próprio lhe confessou a autoria cerca de 40 anos depois, pouco tempo antes de morrer.

Aos 14 anos foi levar acima na obragem do pai na Ricardo Gallo, depois passou para as seringas, no Catita, na Estação.

Mais tarde passou pelos Guilhermes em ajudante de ferreiro.

Em 1960 foi para o Marquês como electricista, arte que já executava nas horas vagas.

Em 1961 foi para a Alemanha, porque os ordenados eram muito baixos e não conseguia fazer nada na vida.

Esteve lá 7 meses sozinho, depois chamou a esposa e a filha.

Naquele país esteve durante 12 anos, estabilizou-se financeiramente e regressou quando uma segunda filha tinha 5 anos de idade e só falava em alemão e ele queira que soubesse português.

A partir de 1974 dedicou-se mais intensamente à música, que o pai lhe tinha ensinado, quando tinha apenas 7 anos. O pai fez uma viola com um braço mais estreito para o Álvaro aprender.

Nas paródias o pai tocava e ele já o acompanhava e quando regressou da Alemanha, dedicou-se ao fado, principalmente depois do 25 de Abril, quando despertou um grande interesse pelo fado.

Quase todos os fins de semana tem actuações e já correu o país de uma ponta à outra.

Esta vivência valeu-lhe muitas amizades e conhecimentos e é com um certo agrado que recorda, uma vez que estava no hospital com a mãe e um senhor se aproximou e tratou tudo de forma a que a senhora fosse atendida mais depressa. Era um admirador seu, que assistia a diversos espectáculos em que actuava e o nosso Ilustre não conhecia.

É com satisfação,  que nos diz que, muitas das actuações são gratuitas. Ainda há bem pouco tempo, deixou de fazer um espectáculo a ganhar dinheiro, para participar no espectáculo pela Sónia, que precisa de um transplante de medula.

Acha que esta é uma arte que não corre riscos, porque há muitos jovens interessados em tocar e cantar.

Pela parte que lhe cabe, vai continuar a tocar, porque "tocar dá-lhe vida".

in: "Jornal da MARINHA GRANDE" - edição de 09/12/1999

   

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