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Acácio
Calazans Duarte nasceu em 15 de Fevereiro de 1889, em Aljezur.
Foram seus pais Luísa da Silva Duarte e José
Calazans Duarte, naturais, respectivamente, de Silves e Aljezur. José Calazans Duarte era
funcionário público.
Após estudos primários em Aljezur e estudos
secundários em Faro e Lisboa, frequenta o ensino superior na Suíça (Lausanne e
Genève). já instalado naquele país, a sua actividade de propaganda em prol da
República - designadamente a criação do periódico bilingue O Patriota -
granjeia-lhe o apreço de Guerra Junqueiro, que lhe obtém uma bolsa da República para
prosseguimento dos estudos. licencia-se em Engenharia e. doutora-se em Ciências
Físico-Químicas. Obtidos estes graus, trabalha ainda na Suíça durante algum tempo.
Regressa a Portugal em 1919. Ensina na Escola
Afonso Domingues, após o que exerce vários cargos administrativos de nomeação
governamental. Em 1920, é enviado para a Estação Agronómica do Umbelezi, em
Moçambique, onde permanecerá apenas cerca de um ano, por se ter envolvido em polémica
com Brito Camacho, então administrador daquela colónia. Em 1924 é incumbido pelo
governo de avaliar o estado da então Fábrica Nacional de Vidros, nessa altura
enfrentando problemas gravíssimos, na sequência da crise económica geral e de uma
administração estatal com participação operária menos bem conduzida e combatida por
vários sectores.
A deslocação que Acácio Calazans Duarte efectua
então à Marinha Grande é decisiva: radica- se na localidade e permanece ligado à
Fábrica - da qual é oficialmente nomeado administrador em 1928 - até 1966, além do
próprio limite oficial de idade. O seu trabalho como gestor, dificílimo nos primeiros
tempos, foi decisivo para a recuperação do estabelecimento, praticamente arruinado à
data da sua chegada.
Algumas vezes Calazans Duarte se manifestou em
órgãos de imprensa regionais - do Sul do país - e nacionais a respeito de questões
políticas várias. Chegou mesmo a iniciar-se na Maçonaria, embora tenha acabado por não
cultivar especialmente essa ligação. Ora, esta mesma personalidade interveniente e a
enorme importância económica e social da Fábrica a que presidia fizeram de Calazans
Duarte uma figura de relevo no meio local.
Dados o teor ' iluminista ' da sua formação
republicana e a sua permanência na Suíça, Calazans Duarte atribuía à valorização
(formação e remuneração) dos recursos humanos a maior importância económica e
social. Mostra-o bem o facto de ter sido, até falecer, membro do Centro Escolar
Republicano Almirante Reis. Em consonância com estas suas opções, estabeleceu a
obrigatoriedade de escolarização dos muitos menores que trabalhavam na Fábrica, foi o
primeiro director de uma Escola Industrial marinhense realmente efectiva (onde ensinou
também é que durante muitos anos funcionou em instalações do estabelecimento) e
apadrinhou a Criação de uma escola liceal privada. Incentivou também a fundação do
Clube dos Industriais Vidreiros, assim como foi sócio do Sport Operário Marinhense, do
Atlético Clube Marinhense, da Sociedade de Beneficência e Recreio 1º de Dezembro
(Ordem) e de outras associações, que apoiou, embora nunca tivesse pertencido aos
respectivos Corpos Directivos. Participou muitas vezes, apresentando palestras, em
sessões de aniversário de associações.
O interesse de Calazans Duarte pelo passado
marinhense decorre logicamente da sua actividade profissional e cívica: interessa-lhe
sobretudo o passado da Fábrica de Vidros, em momentos decisivos de cuja história sabe
ter intervindo. É acerca dos tempos iniciais da Fábrica, sob os Stephens, que sobretudo
escreve, insistindo nas vertentes social e pedagógica que atribui à gestão daqueles
proprietários. É, de resto, interessante notar que (como se pode ver pela imprensa
marinhense da época) a evocação dos Stephens tivera anteriormente papel de relevo nas
lutas pela obtenção da gestão parcialmente operária da Fábrica; ainda em 1922 a
Comissão Administrativa inaugurara com pompa um retrato de Guilherme Stephens. Assim, é
possível que as primeiras informações obtidas pelo autor acerca da acção do inglês
tenham provindo exactamente dos trabalhadores da Fábrica, sobretudo os membros da
Comissão Administrativa, com quem mais directamente trabalhou nos primeiros tempos da sua
permanência na Marinha Grande; ou seja, é possível que os trabalhos de Calazans Duarte
sejam, pelo menos em parte, fixação de tradição oral. Outra fonte de inspiração e
talvez de informações terá sido provavelmente o contacto com Alfredo Gândara, que pelo
início dos anos 1920 começa também a interessar-se pelos temas vidreiros e com quem
desenvolverá relações de grande amizade e colaboração.
Em consequência de todo este processo, referem-se
à indústria vidreira marinhense os seus cinco textos mais desenvolvidos; publicados em
opúsculo ou separata. O primeiro - A crise vidreira. Resposta ao senhor A. Arala
Pinto, de 1932 - Enquadrasse numa polémica que manteve com o responsável do Pinhal a
respeito das melhores formas de combate aos problemas então enfrentados pela indústria
do vidro. Os restantes (Os Stephens na indústria vidreira nacional, A indústria
vidreira na Marinha Grande, e O monumento a Guilherme Stephens) publicam- se entre
1937 e 1943, época em que a Fábrica ia já recuperando - verificando-se mesmo, em 1941,
sob impulso e orientação de Calazans Duarte, o restauro do Teatro que lhe é anexo e a
inauguração de um busto de, Guilherme Stephens (o último dos opúsculos citados
corresponde exactamente ao discurso proferido por Calazans Duarte nessa ocasião). Em 1944
Duarte participa no 1 Congresso das Actividades do Distrito de Leiria, apresentando a
comunicação "A indústria vidreira - aspectos gerais", que não chegará a ter
edição em separata.
Anteriormente, logo no início dos anos 1930, dois
textos seus na imprensa nacional (A República e o suplemento natalício do Diário
de Notícias) apresentam já as ideias principais do seu trabalho sobre o passado
marinhense, procurando simultaneamente alertar para a importância do sector vidreiro.
Outros órgãos de imprensa, marinhense e nacional - nomeadamente a revista Portugal
daquém e d'Além-Mar - reproduzirão mais tarde textos seus proferidos oralmente, em
conferências e cerimônias várias. Merece talvez destaque uma grande entrevista, em
1958, ao Diário da Manhã (transcrita, depois n'A Voz da Marinha Grande) na
qual, a propósito de questões então na ordem do dia quanto à indústria vidreira e
respectivos trabalhadores (mecanização, associativismo empresarial, carreiras,
salários) demoradamente evoca o passado marinhense e vidreiro, sobretudo os tempos dos
Stephens. A última das suas publicações é um pequeno texto sobre história da
indústria marinhense de moldes, publicado já em 1969 no Jornal da Marinha Grande.
Acácio Calazans Duarte casou em 1920 com Alice
Vaz Cintra. Tiveram um único filho, José Manuel Vaz Cintra de Calazans Duarte. Faleceu
na Marinha Grande, em 31 de Maio de 1970. O seu trabalho foi alvo de reconhecimento
público ainda antes dessa data. Em 2 de Agosto de 1959 é homenageado por antigos alunos
em sessão solene no Teatro Stephens. Pelos anos 1960 tem já o seu nome um dos prémios
anualmente concedidos pela Escola Industrial aos alunos mais classificados. Em 27 de Abril
de 1965 a Vereação municipal marinhense delibera atribuir-lhe o título de cidadão
honorário do concelho e dar o seu nome à praceta junto à Escola Industrial.
A partir de 15 de Outubro de 1991 é patrono oficial
da mesma escola. Finalmente, em 1992, aguando do fecho, determinado pelo governo, da
Fábrica que dirigira - fecho cuja data coincidiu com o aniversário do seu falecimento -
foi alvo de homenagem póstuma, numa iniciativa promovida pela Comissão de Trabalhadores
da mesma Fábrica, em colaboração com a Câmara Municipal e o Sindicato Vidreiro. Na
ocasião, foi colocada no seu jazigo uma lápide feita do último cristal a ser produzido
antes do fecho da Fábrica.
Para Cima...
Bibliografia do Autor:
1920, "O Problema português", Correio
do Sul, 26.09.1920.
1922, "Uma violência", A Colónia.
jornal republicano defensor dos interesses de Moçambique, 14.09.1922. 1931, "Um
democrata", A Voz da justiça, 02.05.1931.
1931,'Uma grande indústria nacional que precisa de
ser salva', A República, 11.05.1931. 1932, "Uma grande democracia", A
República, 06.01.1932.
1932, Sem título (conferência sobre instrução,
proferida no Sindicato Vidreiro), A Voz da justiça, 28.05.1932. 1932,
"Nacional Fábrica de Vidros da Marinha Grande', O Notícias Ilustrado, 11 série,
n.' 238, Natal 1932. 1932, A crise vidreira. Resposta ao senhor A. Arala Pinto, s. 1.
[Figueira Foz], e . autor.
1937, Os Stephens na indústria vidreira nacional
(palestra proferida no Teatro de Leiria, na "XV Hora de Arte", promovida
pela Associação Escolar do Liceu Rodrigues Lobo e retransmitida pela Emissora Nacional),
s. I., ed. autor. Transcrito n A Voz da Marinha Grande, 28.05.1959.
1941, Sem título (discurso na inauguração do
Teatro Stephens restaurado), manuscr..
1941, Sem título (discurso na inauguração do
medalhão de homenagem a Joaquim de Carvalho no teatro Stephens restaurado), manuscr..
1942, A indústria vidreira na Marinha Grande.
Conferência na Casa do Distrito de Leiria, Marinha Grande, Nacional Fábrica de
Vidros da Marinha Grande. Marinha Grande, Nacional Fábrica de
Vidros da Marinha Grande.
1943,'Palavras justas! Discurso proferido na
assinatura do acordo colectivo de trabalho', Portugal daquém e d'Além-Mar, Março
1943. Também separata, "dedicada e oferecida por esta publicação a todos quantos
labutam na nobre indústria vidreira', 1943. Também transcrito n A Voz da
Marinha Grande, 01.04.1943.
1943, "O monumento a Guilherme Stephens', Portugal
daquém e d'Além-Mar, Dezembro, 1943. Também opúsculo, Lisboa, Bertrand.
1944, "A indústria vidreira - aspectos
gerais", Livro do 1 Congresso das actividades do distrito de Leiria.
1947, Sem título (discurso na apresentação da
Tuna Académica de Coimbra), Portugal daquém e d'Além-Mar, Junho 1947.
1944, Sem título (conferência sobre Pasteur no
Teatro Stephens), A Voz da Marinha Grande, 24.06.1944, 08.07.1944.
1947,"Afonso Lopes Vieira e o povo ",AAVV,
1947, Afonso Lopes Vieira, 1878 - 1946 In memoriam, Lisboa, Sã da Costa: 255-56.
1947, Sem título (discurso na inauguração do
Colégio Afonso Lopes Vieira), Portugal daquém e d'Além-Mar, Dezembro1947.
1948, Sem título (apresentação de um
conferencista: Alfredo Gândara), Portugal daquém e d'Além-Mar, Junho 1948.
1954, sem título (discurso em homenagem ao
presidente da Câmara Municipal), A Voz da Marinha Grande, 11.11.1954.
1954, sem título (discurso na apresentação do
Grupo de Teatro de Tavarede), A Voz da Marinha Grande (sob o titulo 'Comemoração
Garrettiana'), 18. 11. 1954.
1957,"Com vista ao Congresso das Indústrias -
para fazer reviver a arte do vidro na sua plenitude [ ... ]' (entrevista a Jorge Simões,
publicada no Diário da Manhã).Transcrito n A Voz da Marinha Grande, 01.08.1957,
22.08.1957, 05.09.1957, 12.09.1957, 19.09.1957.
1958, Sem título (discurso na inauguração da
escultura Orfeu),A Voz da Marinha Grande, 01.05.1958,08.05.1958. 1959, Sem título
(discurso em homenagem que lhe foi prestada por antigos alunos), manuser..
1961, Sem título (discurso na inauguração do
busto de Afonso Lopes Vieira), A Voz da Marinha Grande, 24.08.1961.
1966, Sem título (discurso em sessão solene
na empresa Manuel Pereira Roldão), Jornal da Marinha Grande, 30.07.1966.
1968, "Comentário", Jornal da Marinha
Grande, 17.02.1968.
1968,'Evocação'(de Carlota Tinoco e Dr. Agostinho
Tinoco, palestra proferida no teatro de Leiria, na 'XXXV Hora de Arte'), manuscr..
1969, "A indústria de moldes na Marinha
Grande', Jornal da Marinha Grande, 01.08.1969.
1969, Sem título (discurso no almoço comemorativo
dos 200 anos da Fábrica Stephens), Jornal da Marinha Grande, 24.10.1969. Também
n' A Voz da Marinha Grande, 15.11.1969.
in: VIDAS PASSADAS OBRAS PRESENTES
(pinhal do rei - documentos concelhios)
Exposição Documental e Bibliográfica
Câmara Municipal da Marinha Grande
(projecto Núcleo de Arquivo e Documentação)
Para Cima...
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