Ontem, pelas quatro da
tarde, foi o meu embarque na Ponte do cais de Bissau, para bordo dum
batelão que depois me levou ao Uíge; navio que neste momento segue
“caminho” de Lisboa.
Desde muito cedo, que
comecei a sentir os efeitos dos balanços do navio, que cada dia mais,
terão tendência. Em aumentar. São quase seis da tarde, e estou deitado na
cama no meu camarote. (A malta da minha companhia vem toda em camarotes,
ao contrário da ida, em que só os oficiais sargentos e cabos, tiveram esse
privilégio).
Passaram mais umas
horas; pois fui obrigado a ir "deitar carga ao mar" por duas vezes.
Seguidamente jantei e
fui ao cinema, e depois de dormir umas horas, encontro-me mais bem
disposto.
Os relógios atrasaram 60
minutos.
São nove horas da manhã,
na minha cabeça ainda se faz sentir um certo "peso", talvez causado peta
mudança de clima; o que sempre me aconteceu mesmo quando mudava de zona.
Vou tentar descrever a parte final deste meus quase 22 meses, que se
resumiram em pequenos apontamentos daquilo que se passou em meu redor:
No sentido de
camaradagem, o meu ponto de vista, é excelente (comigo claro), muito
embora, eu não tivesse sido bem compreendido, no desempenho das funções
que me confiaram - responsável pelo depósito de géneros, na maior parte do
tempo - pois entendiam que a minha maneira de ser, era rude; porém eu
simplesmente cumpria o meu dever, gerindo muitas vezes, o que era
ingerível...
A nível de chefias - nem
tudo foi cor-de-rosa - fiz óptimas amizades; entre outras, menos dignas
desse nome. (A carapuça só serve a quem ela couber) Testemunhei algumas
injustiças, que já vinham viciadas da Metrópole. Até os nossos
vencimentos, estiveram sempre incompletos, sem sabermos a causa. Para no
fim, sermos contemplados com pouco mais de uma centena de escudos,
excepto, oficiais e sargentos.
Foi oferecido um guião a
todos, mas eu fui um dos esquecidos, pois não mandaram fazer os
suficientes.
Porque gostava de ter um
guião, fui à secretaria e ao pôr os olhos num, acabei por roubá-lo...
Agora que o pior passou,
a alegria não tem limites, e o meu maior prazer, foi finalmente poder dar
com os dois pés nesta vida, a que estive obrigatoriamente submetido.
Haveria muito mais que descrever nesta vida, onde, por diversas vezes, fui
obrigado a ir mais tarde para o reforço, e sacrificar o meu colega de
serviço, para poder acabar os meus registos diários. No mato, enquanto
fazia emboscadas ou patrulhas, os apontamentos do meu livrinho, que trazia
sempre comigo no dólmã, saíram algumas vezes incompletos e com falta de
acção e estilo - a minha escassa formação primária não me proporcionou
melhores ideias - e tudo o que ficou escrito, não se tratou senão de
simples partes vividas, onde a realidade dava lugar a maiores
esclarecimentos. E, acabei por impor a mim próprio, a chamada "memória
selectiva", e omitir factos tão ruins, que eu nem os conseguia descrever,
e com a sua omissão, convencer-me de que nunca aconteceram.
A minha missão não foi
das mais árduas; outros houve que sofreram muito mais. Para esses, irá
decerto o carinho de todos quantos nos rodearam através das escassas
notícias referidas além-mar.
Nada paga tão imensa
alegria, de podermos regressar ao lar, e esquecermos, tantas e tantas
horas, que passámos sem dormir, atentos ao inimigo, e depois de o termos
aguentado, acarinharmos os nossos camaradas feridos, ou chorarmos os
mortos. A estes últimos: os heróis desconhecidos desta guerra, aqueles que
mais ninguém recordará, a não ser os pais, irmãos, esposas e filhos, a
estes, a minha modesta homenagem que se resume a desejar-lhes Eterno
Descanso. Irmãos de meses difíceis desta tropa, a minha lembrança por
vocês, perdurará em mim eternamente, pois eu podia ter sido um de vós!...
(-10 horas e 10 minutos,
navio Uíge, 20/XI/1968)