Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

10/11/1968
Quartel dos Adidos em Bissau

 

A anarquia é total! E extensiva aos nossos superiores. Impossível confusão tão completa. Sobretudo à noite, quando os nossos corpos necessitam de descanso: há corpos deitados de qualquer maneira; uns em cima de simples ferros; outros em camas sem leito e colchão, no chão; e os mais afortunados foram roubar camas completas a outras casernas.

Caixas, malas, e sacos, não faltam pelo chão, espalhados de qualquer modo... Gritos de desespero e desolação é a imagem destas noites inteiras: mas não vale a pena conspirar; estes dias terão de ser passados assim até chegar o Uíge.

Tudo isto e muito mais, que se me torna impossível registar, é passado numa "caserna" (arrecadação) do Depósito Geral de Adidos em Bissau, onde se encontra toda a Companhia, desde o dia oito deste mês. Finalmente fora do mato!

 

 

19/11/1968
Navio Uíge

 

 

Ontem, pelas quatro da tarde, foi o meu embarque na Ponte do cais de Bissau, para bordo dum batelão que depois me levou ao Uíge; navio que neste momento segue “caminho” de Lisboa.

Desde muito cedo, que comecei a sentir os efeitos dos balanços do navio, que cada dia mais, terão tendência. Em aumentar. São quase seis da tarde, e estou deitado na cama no meu camarote. (A malta da minha companhia vem toda em camarotes, ao contrário da ida, em que só os oficiais sargentos e cabos, tiveram esse privilégio).

Passaram mais umas horas; pois fui obrigado a ir "deitar carga ao mar" por duas vezes.

Seguidamente jantei e fui ao cinema, e depois de dormir umas horas, encontro-me mais bem disposto.

Os relógios atrasaram 60 minutos.

São nove horas da manhã, na minha cabeça ainda se faz sentir um certo "peso", talvez causado peta mudança de clima; o que sempre me aconteceu mesmo quando mudava de zona. Vou tentar descrever a parte final deste meus quase 22 meses, que se resumiram em pequenos apontamentos daquilo que se passou em meu redor:

No sentido de camaradagem, o meu ponto de vista, é excelente (comigo claro), muito embora, eu não tivesse sido bem compreendido, no desempenho das funções que me confiaram - responsável pelo depósito de géneros, na maior parte do tempo - pois entendiam que a minha maneira de ser, era rude; porém eu simplesmente cumpria o meu dever, gerindo muitas vezes, o que era ingerível...

A nível de chefias - nem tudo foi cor-de-rosa - fiz óptimas amizades; entre outras, menos dignas desse nome. (A carapuça só serve a quem ela couber) Testemunhei algumas injustiças, que já vinham viciadas da Metrópole. Até os nossos vencimentos, estiveram sempre incompletos, sem sabermos a causa. Para no fim, sermos contemplados com pouco mais de uma centena de escudos, excepto, oficiais e sargentos.

Foi oferecido um guião a todos, mas eu fui um dos esquecidos, pois não mandaram fazer os suficientes.

Porque gostava de ter um guião, fui à secretaria e ao pôr os olhos num, acabei por roubá-lo...

Agora que o pior passou, a alegria não tem limites, e o meu maior prazer, foi finalmente poder dar com os dois pés nesta vida, a que estive obrigatoriamente submetido. Haveria muito mais que descrever nesta vida, onde, por diversas vezes, fui obrigado a ir mais tarde para o reforço, e sacrificar o meu colega de serviço, para poder acabar os meus registos diários. No mato, enquanto fazia emboscadas ou patrulhas, os apontamentos do meu livrinho, que trazia sempre comigo no dólmã, saíram algumas vezes incompletos e com falta de acção e estilo - a minha escassa formação primária não me proporcionou melhores ideias - e tudo o que ficou escrito, não se tratou senão de simples partes vividas, onde a realidade dava lugar a maiores esclarecimentos. E, acabei por impor a mim próprio, a chamada "memória selectiva", e omitir factos tão ruins, que eu nem os conseguia descrever, e com a sua omissão, convencer-me de que nunca aconteceram.

A minha missão não foi das mais árduas; outros houve que sofreram muito mais. Para esses, irá decerto o carinho de todos quantos nos rodearam através das escassas notícias referidas além-mar.

Nada paga tão imensa alegria, de podermos regressar ao lar, e esquecermos, tantas e tantas horas, que passámos sem dormir, atentos ao inimigo, e depois de o termos aguentado, acarinharmos os nossos camaradas feridos, ou chorarmos os mortos. A estes últimos: os heróis desconhecidos desta guerra, aqueles que mais ninguém recordará, a não ser os pais, irmãos, esposas e filhos, a estes, a minha modesta homenagem que se resume a desejar-lhes Eterno Descanso. Irmãos de meses difíceis desta tropa, a minha lembrança por vocês, perdurará em mim eternamente, pois eu podia ter sido um de vós!...

(-10 horas e 10 minutos, navio Uíge, 20/XI/1968)

 
 
 

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