O meu sono e o dos meus
camaradas foi perturbado à uma da madrugada! E passadas duas horas, saímos
juntamente com a companhia presentemente cá destacada, para fins
operacionais.
O nosso destino, era uma
ligeira patrulha nas matas de Seé, a pouco mais de 10 Kms de percurso. O
andamento foi decorrendo normal e sem incidentes até cerca das seis da
manhã: altura em que detectámos algumas folhas juntas a uma árvore - a
sentinela avançada do inimigo, que tinha ido dar o alarme.
A seguir era a entrada,
numa bolanha rodeada de espessa mata, feita em corrida: tínhamos detectado
tropas inimigas - que no momento em que eu chegava à zona de morte (vista
depois) - faziam a entrada numa mata do nosso lado esquerdo; esses mesmos
acabavam de fazer uma patrulha, ou então deveriam vir dum suspeito
acampamento, perto da nossa viatura, imobilizada na emboscada de 10 de
Abril (?). Fiz logo fogo, assim como toda a frente do meu grupo; sendo
nessa ocasião feridos alguns inimigos... o resto desses, fez entrada
apressada na mata.
Entretanto, nós
avançávamos pela mata dentro; mas a escassos metros o inimigo
esperava-nos!
Então o tiroteio foi
intenso, com o inimigo a cercar-nos. Tivemos de retroceder: mas uma vez
fora da mata, os tiros e rebentamentos, sucediam-se de todos os lados;
eram feridos cinco elementos nossos, entre eles o capitão da outra
companhia.
Depois avançámos ao
longo da mata, com as forças inimigas bem instaladas, e a fazer fogo
constante sobre nós. Num momento de maior aflição era deixado o capitão e
alguns homens nessa dita zona de morte. Eu, nesse momento, estava no meio
da bolanha oferecendo um alvo fácil, ouvindo assobiar rajadas e roketadas,
e via os meus companheiros a passarem por mim; pois tinha sido dos
primeiros, e só fiquei para trás, na altura em que reparei que todos
"fugiam" em direcção a Bissá, sem se importarem com a rectaguarda.
Gritei!... Pedi que recuassem!... E vi os turras correrem para os que
estavam em perigo. (Depois - disse um soldado de nome Pombinho, de quem eu
trazia a arma - "os turras avançaram, mandando-lhe levantar as mãos e
ordenando que se rendesse"): A resposta dele; foi uma rajada com uma arma
de um ferido, obrigando-os a fugir para o mato.
O tiroteio continuava
com as nossas forças dispersas pelo mato, havendo dois grupos de combate,
que tinham ido dar uma volta ainda maior, e reagrupando aqueles que ainda
estavam na zona de fogo.
À frente tudo corria,
para Bissá. Atrás, ficavam duas armas: uma pesada "Mgê" e uma ligeira
Gê.3; e o pior de tudo, um homem da outra companhia, era apanhado à mão
pelo inimigo! (Mais tarde falou-nos de Conakry, via rádio - a informar-nos
que se encontrava bem).
Enquanto a maior parte
chegava a Bissá, com dois feridos graves a perderem sangue, entre outros,
apareciam no local de combate, dois bombardeiros, dando em seguida algumas
rajadas para a mata, onde nessa altura se encontravam já, os grupos de
combate, que tinham vindo em socorro, orientando-se pelo tiroteio.
Seguidamente aterrava um helicóptero protegido pelos bombardeiros, para
evacuar o capitão e mais dois homens também feridos por uma roketada,
enquanto lhe faziam segurança.
Partimos de Bissá às
duas da tarde; mas só os que podiam andar - lá seriam evacuados quatro
homens feridos e dois exaustos - pois ainda lá ficaram três ou quatro que
não podiam caminhar. Eu, apesar de ter poucas esperanças em aguentar essas
três horas de andamento, abalei disposto a cobri-las, pois trazia no
pensamento unicamente o nome de Porto Gole! Fomos encontrar os
bombardeiros, a meio do percurso, não tendo mais chatices com o inimigo.
Cansado e sem forças,
fui o primeiro a chegar a Porto Gole...