Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

01/06/1968
Porto Gole

 

O meu sono e o dos meus camaradas foi perturbado à uma da madrugada! E passadas duas horas, saímos juntamente com a companhia presentemente cá destacada, para fins operacionais.

O nosso destino, era uma ligeira patrulha nas matas de Seé, a pouco mais de 10 Kms de percurso. O andamento foi decorrendo normal e sem incidentes até cerca das seis da manhã: altura em que detectámos algumas folhas juntas a uma árvore - a sentinela avançada do inimigo, que tinha ido dar o alarme.

A seguir era a entrada, numa bolanha rodeada de espessa mata, feita em corrida: tínhamos detectado tropas inimigas - que no momento em que eu chegava à zona de morte (vista depois) - faziam a entrada numa mata do nosso lado esquerdo; esses mesmos acabavam de fazer uma patrulha, ou então deveriam vir dum suspeito acampamento, perto da nossa viatura, imobilizada na emboscada de 10 de Abril (?). Fiz logo fogo, assim como toda a frente do meu grupo; sendo nessa ocasião feridos alguns inimigos... o resto desses, fez entrada apressada na mata.

Entretanto, nós avançávamos pela mata dentro; mas a escassos metros o inimigo esperava-nos!

Então o tiroteio foi intenso, com o inimigo a cercar-nos. Tivemos de retroceder: mas uma vez fora da mata, os tiros e rebentamentos, sucediam-se de todos os lados; eram feridos cinco elementos nossos, entre eles o capitão da outra companhia.

Depois avançámos ao longo da mata, com as forças inimigas bem instaladas, e a fazer fogo constante sobre nós. Num momento de maior aflição era deixado o capitão e alguns homens nessa dita zona de morte. Eu, nesse momento, estava no meio da bolanha oferecendo um alvo fácil, ouvindo assobiar rajadas e roketadas, e via os meus companheiros a passarem por mim; pois tinha sido dos primeiros, e só fiquei para trás, na altura em que reparei que todos "fugiam" em direcção a Bissá, sem se importarem com a rectaguarda. Gritei!... Pedi que recuassem!... E vi os turras correrem para os que estavam em perigo. (Depois - disse um soldado de nome Pombinho, de quem eu trazia a arma - "os turras avançaram, mandando-lhe levantar as mãos e ordenando que se rendesse"): A resposta dele; foi uma rajada com uma arma de um ferido, obrigando-os a fugir para o mato.

O tiroteio continuava com as nossas forças dispersas pelo mato, havendo dois grupos de combate, que tinham ido dar uma volta ainda maior, e reagrupando aqueles que ainda estavam na zona de fogo.

À frente tudo corria, para Bissá. Atrás, ficavam duas armas: uma pesada "Mgê" e uma ligeira Gê.3; e o pior de tudo, um homem da outra companhia, era apanhado à mão pelo inimigo! (Mais tarde falou-nos de Conakry, via rádio - a informar-nos que se encontrava bem).

Enquanto a maior parte chegava a Bissá, com dois feridos graves a perderem sangue, entre outros, apareciam no local de combate, dois bombardeiros, dando em seguida algumas rajadas para a mata, onde nessa altura se encontravam já, os grupos de combate, que tinham vindo em socorro, orientando-se pelo tiroteio. Seguidamente aterrava um helicóptero protegido pelos bombardeiros, para evacuar o capitão e mais dois homens também feridos por uma roketada, enquanto lhe faziam segurança.

Partimos de Bissá às duas da tarde; mas só os que podiam andar - lá seriam evacuados quatro homens feridos e dois exaustos - pois ainda lá ficaram três ou quatro que não podiam caminhar. Eu, apesar de ter poucas esperanças em aguentar essas três horas de andamento, abalei disposto a cobri-las, pois trazia no pensamento unicamente o nome de Porto Gole! Fomos encontrar os bombardeiros, a meio do percurso, não tendo mais chatices com o inimigo.

Cansado e sem forças, fui o primeiro a chegar a Porto Gole...

 

 

02/06/1968
Porto Gole

 

 

Hoje esteve cá, Sua Ex.ª o Sr. Brigadeiro Spínola.

Governador e Comandante - Chefe das Forças Armadas; que se encontra nestas terras, há pouco mais de uma semana; Permaneceu algumas horas em reunião confidencial, com os nossos comandos, falando-nos em seguida acerca do incidente e da causa da sua vinda a este. Fez-se transportar em duas avionetas.

Regressaram a Mansôa, também todos os elementos da companhia 2315, que actuaram em conjunto com as nossas forças, aproveitando a vinda cá, dum batalhão que transportou géneros da Manutenção Militar de Bissau para cá.

 
 

03/06/1968
Porto Gole

 

 

Três dias passados após a fatídica "patrulha", o meu corpo anda todo partido, e dificilmente me sai da cabeça, o espectáculo daquele infernal tiroteio.

Acrescento que foi gravemente ferido, o outro cabo da minha secção - o Arnaldo - sendo um dos evacuados.

 
 

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