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Abel de Jesus Carreira Rei |
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01/02/1968
Porto Gole |
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Há precisamente um ano,
que eu iniciei a minha viagem a caminho da Guiné, e também que eu comecei
descrevendo, ora diário, ora não, algumas linhas do que tem sido a minha
vida.
Como se até mesmo o meu
estado psicológico denotasse este prazer, por ver passar, felizmente bem,
o fim de um ano de incertezas e dúvidas, hoje senti-me bastante melhor, em
relação aos dias anteriores. Embora tivesse tomado dois comprimidos,
passei o dia bem disposto, e sem o mau estar dos outros dias. Houve esta
tarde correio, que foi distribuído há momentos. Tive somente uma carta de
casa. Quanto ao serviço cá, tem, sido: só comer, passear e dormir. E...
vou continuando à espera do começo da minha licença!
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14/02/1968
Férias em Bissau |
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Desde o dia 8 que me
encontro em Bissau. Vim juntamente com o "Conjunto João Paulo", que fez
nesse mesmo dia, uma actuação musical em Porto Gole, partindo de seguida
numa lancha, pelo rio Geba, para cá.
Estou hospedado na
Pensão Chantre, e neste dia não me encontro muito bom de saúde. Ontem
estive de cama todo o dia bastante mal disposto, e sem comer.
Só hoje é que saí um
pouco à tarde.

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Para Cima...
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18/02/1968
Bissau |
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Nesta cidade - pequeno
bloco Português, onde só quase se vêem elementos das nossas Forças Armadas
- cá me vai o tempo consumindo as minhas férias. Mas além de tudo isso,
nada se compara com o que imaginava ou que me tinha sido dito sobre ela: É
grande, não muito, já conta com algumas moradias modernas, e enormes
bairros, embora para isso tivesse influência a visita do Presidente de
Republica Portuguesa, feita no princípio deste mês.
A minha vida tem sido
passear e, sobretudo descansar. Tenho percorrido praticamente toda a
cidade incluindo o Pilão - onde abundam festas nocturnas com bailes,
sobretudo nesta altura do Carnaval - a parte mais pobre da capital,
composta por bairros de população nativa. A minha opinião sobre Bissau é
bastante boa, em que sobressai o comércio, no aspecto económico como base
da sua sobrevivência, e anula toda a minha impressão registada, quando
cheguei à Guiné.
Para além de tudo que é
sossego aqui; todos os que vêm do mato, vivem a par das notícias que de lá
chegam todos os dias. E assim eu por cá soube que no dia 9, o
aquartelamento em Porto Gole foi mais uma vez atacado, e o mesmo aconteceu
ao Enxalé passados 4 dias. Destes ataques os meus camaradas nada sofreram;
mas... segundo notícias chegadas hoje ao meu conhecimento e durante
confrontos das nossas forças de Porto Gole, com o inimigo, sofremos vários
feridos, ficando um deles em estado grave - o nosso furriel enfermeiro
-que apanhou com estilhaços de rokete, e que foi preciso evacuar do local,
com ajuda aérea de bombardeiros.
(Isto foi tudo o que
pude saber!)
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03/03/1968
Bissau |
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Em determinada altura do
mês findo, esta cidade de Bissau, foi alvo de fogo inimigo, durante um
ataque à Base Aérea de Bissalanca; parece ter havido três mortos e quinze
feridos, todos nativos (?).
Estou a descrever o que
foram os turbulentos dias de Fevereiro:
Quando me encontrava
numa noite destas, pelas onze horas, a passear junto à área do Porto
Marítimo de Bissau, começou-se inesperadamente (como sempre), a ouvir o
rebentar de granadas potentes, e a vê-las lançar ao ar as suas mortíferas
estilhaçadas incandescentes... Era mais um ataque terrorista a um
destacamento na área de Tite. Nesse mesmo dia, tinham os paraquedistas,
aprisionado algum material de guerra aos turras e capturado alguns dos
seus efectivos.
Passados alguns dias,
era atacado à morteirada, o próprio quartel em Tite - e note-se, esta zona
se fosse Angola ou Moçambique, seria quase dentro da capital da Província
- causando-nos dois mortos e sete feridos (?).
Ainda numa operação,
efectuada na zona de Porto Gole, da minha companhia, em conjunto com mais
forças de outras companhias, tivemos mais um morto, que ficou embrulhado
nas águas dum rio, juntamente com a arma, quando faziam a retirada duma
emboscada do inimigo, depois de estarem debaixo de fogo durante bastante
tempo, e com o capim a arder à sua volta, incendiado pelos turras.
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Para Cima...
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