Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

30/12/1967
Enxalé

 

Desde o dia 21, que o comando da companhia se mudou para Porto Gole, e Enxalé passou a destacamento. É composto pelo meu grupo de combate Com trinta e um homens, sendo os restantes (cerca de 15) destacados para formarem outro pelotão, em rendição de baixas.

Está-me a crer parecer que o tempo se passa melhor sem escrever amiúde, aquilo que por cá vai sendo a minha vida, talvez motivado pelo estado de saturação (?). Deste modo dou menos conta dos dias; pois quando reparo estão mais uns passados. O ano está a terminar, e todos estes últimos dias, os meus afazeres têm sido imensos:

Depois de umas quantas saídas do quartel em serviço de "piquete"; transporte de correio; descarregamento de géneros, no porto próximo, durante o qual é preciso picar a estrada em todas as deslocações, etc. Fui até Bafatá no dia 23, para comprar bebidas, doces e frutas, para festejarmos o dia de Natal e a passagem de ano.

Foi a primeira vez que visitei uma cidade da Guiné!

Fomos uns quantos de Enxalé, até às margens do rio Geba, percorrendo de canoa cerca de três quilómetros, o rio, até ao quartel do Xime, onde com mais alguns elementos, em viatura auto, nos fizemos à estrada, percorrendo cerca de sessenta quilómetros, passando por Bambadinca, depois a zona de Fá e finalmente Bafatá. Regressámos a Enxalé já de noite, atravessando uma bolanha com dois quilómetros e meio de extensão, e com água a cobrir-nos a cintura.

Não vou deixar aqui as minhas impressões, sobre aquela cidade, pois que lá não achei nada de especial; somente pequenina! Uma cidade, onde a sua base é o comércio, desfrutando do progresso da guerra, e onde a mesma não faz sentir os seus efeitos destruidores.,.

A seguir veio o Natal, vivido no meio de boa disposição, com bastante camaradagem e optimismo entre o grupo. Houve uma ligeira ceia - pois era preciso estarmos atentos ao inimigo - onde não faltou o "velho amigo" vinho do Porto, e demais bebidas, juntamente com bolos, nozes, pinhões, passas de uvas, etc. E... até umas filhoses feitas por mim.

No dia 28, os "turras" vieram cá "visitar-nos", durante alguns minutos, durante os quais nos defendemos, não ocorrendo desse ataque, nada de grave a assinalar.

 

05/01/1968
Enxalé

 

 

Registo hoje as primeiras letras do ano novo. O ano da "peluda"? ("peluda" em linguagem de caserna, significa: fim da tropa). Porém os acontecimentos, obrigam a que seja da pior maneira: eram oito horas da manhã, quando um helicóptero levou de cá, três feridos nativos: dois deles em estado muito grave, sendo entre eles, uma criança com os miolos da cabeça à mostra.

Ontem cerca das onze horas da noite, depois de ir render os homens, que compõem a guarda do aquartelamento, estando ainda nessa altura, alguns a conversar com os seus substitutos, e eu encontrando-me nas imediações da porta de armas, onde se encontra um cavalo de frisa, vi-me obrigado a correr com agilidade, para um abrigo que ficava a mais de 50 metros, já debaixo de fogo inimigo. O ataque começou de rompante com rebentamentos e rajadas. De início, lançaram morteiradas incendiárias para as tabancas e iluminantes para dentro do nosso "arame" farpado. Nós respondemos imediata e prontamente, notando-se que já nas tabancas haviam gritos, e começavam a arder as palhas que lhes cobrem o tecto. À meia-noite somente se ouvia o nosso metralhar de reconhecimento, e ao mesmo tempo a dificultar-lhes a retirada. Entretanto, recolhíamos sete feridos nas tabancas, cuidando deles; da nossa parte (militares) houve apenas ligeiras quedas provenientes da louca correria para salvar a pele!...

Hoje, logo de manhã cedo, fomos bater a zona donde sofremos o ataque, encontrando: além de um morto inimigo - que eles ainda levaram de rojo, durante alguns metros - enormes rastos de sangue; variadíssimas espécies de munições, - ficando-se a saber que utilizaram - "canhão sem recuo"; morteiros 82 e 61; bazuca; armas automáticas (entre elas, uma de balas 12,7 - meia polegada); e muitas armas ligeiras. Também encontrámos lá várias, peças de armamento ligeiro.

Visto o aquartelamento estar escassamente mal guarnecido, tanto de homens, como de armamento (calcula-se que os turras utilizaram o triplo das armas que nós temos), eles pensavam seguramente que viriam cá para nos causar baixas, e chatearem-nos com a sua "artilharia", durante bastantes horas. Tudo aconteceu ao contrário, pois o nosso fogo foi certeiro, e com a rapidez de quem está vigilante vinte e quatro horas por dia, e mau grado seu, retiraram com pesadas baixas, certamente?

 
 

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