Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

29/11/1967
Enxalé

 

São quatro horas da tarde. Ontem por esta hora, encontrava-me tal como agora, deitado na cama; mas completamente exausto e depois de uma "viagem" de helicóptero, feita quando estava a meio de uma operação. Estou em Enxalé desde o dia 21 deste mês. Não me foi possível registar nada, desde que cheguei, pois assim que vim de Porto Gole, fiquei bastante doente, com dores nos intestinos e também no corpo todo. Fui visto pelo médico, que depois de me receitar três injecções e comprimidos, voltou daí a três dias para me considerar de novo operacional e também todos os meus companheiros de Bissá!

Assim deste modo partimos à meia-noite do dia 27, com uma ração de combate por cada dois homens, e a caminho dum acampamento de "turras", situado em Madina, onde eles tinham bastantes armas pesadas, entre elas, um ou dois morteiros 82 e canhão sem recuo (?)..., onde chegámos por volta das dez e meia da manhã. Por essa altura, começou a sobrevoar a zona, uma avioneta com um "major de operações". Depois de mais de uma hora parados, e a suportar toda a intensidade do sol escaldante, fomos obrigados a avançar para o objectivo. Nessa ocasião fazia-se a entrada numa bolanha cheia de água.

Mas os nossos corpos caíram!... Fomos quatro evacuados. E, entretanto, (além de cerca de vinte homens que ficaram a fazer a segurança ao helicóptero), todos os outros iam a caminhar para o objectivo. Nós levantámos, no meio do capim com mais de três metros de altura, e assim que partimos, toda a zona era alvo de fortes rebentamentos, lançados pelo inimigo, para "liquidar" os homens que eles sabiam estar, nesse local em que o helicóptero subiu.

O tiroteio sucedia-se cobrindo aqueles matos!

Tínhamos chegado ao fim do percurso, e decerto; a sermos sempre observados pelo inimigo. Agora era o mais difícil: atacar e fazer a retirada; que é onde se juntam todos os sacrifícios, que são cada vez maiores, na medida em que reduzem as nossas capacidades.

Os homens que ficaram atrás comigo, contaram que foram obrigados a retirar para fugir ao fogo dos "turras", que batiam a zona. Perderam-se...

Os outros, que o capitão (de nome, Figueiredo) obrigou a irem contra as trincheiras do inimigo - apontando-lhes a sua arma, com ameaça de disparos, se não avançassem - sofriam dois mortos e três feridos. Não lhes foi possível trazer os mortos; um soldado nativo das milícias, e o próprio guia, pois o fogo era intenso.

Chegaram já de noite, divididos em dois grupos, aqui ao quartel, tendo andado perdidos uns dos outros.

Vinham estafados.

 

14/12/1967
Enxalé

 

 

Para reabastecimento de géneros ao destacamento de Bissá, saímos hoje de manhã cedo, indo quase até Porto Gole. A coluna constituída pelo meu grupo de combate, e acompanhada por uma viatura auto-metralhadora "granadeiro" (viatura pesada blindada com chapas metálicas e areia), e mais quatro viaturas, fez o seu regresso, cerca do meio-dia: Pela estrada, em que fomos sempre a pé, picando a área em todo o percurso, ao longo da nossa deslocação foram encontrados jornais de propaganda subversiva terrorista. Chegámos a recear "festa", mas tudo correu bem!

 
 

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