Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

08/10/1967
Bissá

 

Hoje é domingo. Um domingo igual a tantos outros, embora um pouco ventoso. O sol vai-se encobrindo.

Tentarei descrever, o que até agora me tem sido impossível... Com o corpo um pouco mais fresco, depois de um banho tomado após uns chutos na bola.

Dadas as enormes dificuldades, em saber pormenores exactos, devido ao estado moral de todos nós, e à enorme confusão dos factos, vou descrever o que foi passado no dia cinco, pelas onze horas da manhã.

(Antes eu não fosse obrigado a assinalar notas de lamentar, mas o destino assim o quer!) *

Depois de a nossa coluna ir a pé, a picar todo o percurso, para detectar alguma mina, - pois não temos cá uma viatura, para transporte de tropas - até ao local, onde rebentou a mina do dia dezasseis de Setembro, encontrou aí, a coluna em viatura auto vinda de Porto Gole: que trazia um furriel e um soldado clarim, para cá ficarem destacados. Em seguida cada grupo tomou as suas direcções, e o regresso às suas origens, ouvindo a nossa malta, volvidos alguns minutos, forte rebentamento; parecendo-lhes ser uma morte irada de reconhecimento?

Era já mais de meio-dia, quando o nosso grupo chegou, contudo nada sabiam...

Sabíamos sim, nós (os que cá ficámos) que uma mina incendiária tinha explodido!, e que já tinham sido pedidos socorros aéreos, havendo "manga" de feridos graves, e talvez mortos (?) - isto captado pelo nosso operador de transmissões. Nós cá também ouvimos o, rebentamento; daí a certeza exacta das horas!

Assim almoçámos, debaixo de uma tensão geral de nervos. Do acidente somente sabíamos que a viatura! tinha ardido, vindo os helicópteros nessa mesma tarde, e sendo uns atrás dos outros durante bastante tempo.

No dia seguinte (seis), ainda da parte da manhã, fazia o pessoal de Porto Gole, uma coluna à viatura sinistrada, para recolha da mesma e outros objectos perdidos, sofrendo forte emboscada no local, por um período de cerca de duas horas e meia, e que nós ouvíamos perfeitamente em Bissá.

O balanço de todos estes percalços (divulgado agora pelo comando da companhia), foi assustadoramente assim:

- Mina; seis mortos e vinte e um feridos com queimaduras, todos evacuados para a Metrópole.

- Emboscada; um morto, e um ferido sem gravidade.

Tanto na mina como na emboscada, foi precisa imediata colaboração da aviação, que desta vez chegou de pronto, vindo dois bombardeiros, que ajudaram os helicópteros a localizar o acidente. Num breve resumo, Bissá tem até este mês de Outubro, e desde que começou a existir, militarmente em Abril deste ano, os seguintes acidentes graves:

Sete mortos e alguns feridos em Abril, e ainda nesse mês rebentou uma mina comandada, a poucos metros deste destacamento, accionada por uma viatura que pertencia ao batalhão de Mansôa, indo a viatura pelos ares, sendo feita em pedaços, causando a morte a um furriel e fazendo alguns feridos; depois em Setembro, mais uma viatura feita em pedaços, causando quatro mortos e vinte e tal feridos.

Agora nos dois dias; sete mortos e vinte e um feridos, e mais uma viatura incendiada.

Finalmente resumindo: três viaturas inutilizadas; mais de vinte mortos; e uns cinquenta feridos evacuados.

(Fontes mal informadas, dizem que teriam morrido mais três homens da mina incendiária, na Metrópole).

Para terminar esta "série negra", uma coluna nossa que fazia o percurso Enxalé - Porto Gole - Enxalé, quando regressava, já perto de Enxalé, no dia 22 de Agosto, descobriu que tinha rebentado uma mina ao inimigo, ao proceder à sua montagem na estrada, morrendo o que a estava a montar sendo feito em pedaços, e deixando uma mina anti-carro, que a nossa coluna levou para o quartel.

Este ainda não é o fim de todos estes desaires, pois aqui em Bissá, se não temos mortos, os vivos não têm que comer. Há mais de oito dias que não temos vinho, cerveja, ou outros líquidos que se bebam.

O comer acabou: estando-se a comer, ora carne de vaca, ora bacalhau com pão e... água!

 

 * Em 5/6 uma viatura que saiu de Porto Gole em direcção a Bissá fez accionar uma mina anti-carro, que no momento causou 1 morto e 26 feridos. Posteriormente morreram mais 10 militares. No dia 6 saiu de Porto Gole uma coluna para o local de rebentamento da mina a fim de evacuar a viatura destruída; sofreu uma emboscada de um G. IN cerca de 80 elementos tendo morrido mais um militar e saído ferido outro. Não se conseguiu evacuar a viatura em virtude de sermos obrigados a retirar visto o nosso efectivo ser muito menor em relação ao IN..."

 

16/10/1967
Bissá

 

 

Há quatro dias que nos trouxeram, entre escassas coisas, vinte litros de vinho e trinta quilos de batatas.

A nossa estadia aqui está-se tornando impossível, e eu como cabo "vagomestre", luto com enormes dificuldades diariamente, dando voltas à cabeça, visto não saber o que hei-de dar a comer a todo o pelotão, e ainda às duas secções de polícia, nativos. Assim se vive, procurando manter o equilíbrio mínimo de subsistência, e sentindo dia a dia o peso a diminuir! Até os medicamentos escasseiam - essencialmente as vitaminas.

A mesma coluna - uma companhia de "periquitos", (tropa recém-chegada da Metrópole) - trouxe com ela o boato de que dentro de dez dias, seria certa a nossa saída da zona, não se sabendo entretanto quando, de que maneira, e para que local: mas isso será somente o aumento ainda maior do nosso sofrimento neste inferno de nome Bissá!... O pior aquartelamento nesta altura, na Guiné!

 
 

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