Hoje é domingo. Um
domingo igual a tantos outros, embora um pouco ventoso. O sol vai-se
encobrindo.
Tentarei descrever, o
que até agora me tem sido impossível... Com o corpo um pouco mais fresco,
depois de um banho tomado após uns chutos na bola.
Dadas as enormes
dificuldades, em saber pormenores exactos, devido ao estado moral de todos
nós, e à enorme confusão dos factos, vou descrever o que foi passado no
dia cinco, pelas onze horas da manhã.
(Antes eu não fosse
obrigado a assinalar notas de lamentar, mas o destino assim o quer!) *
Depois de a nossa coluna
ir a pé, a picar todo o percurso, para detectar alguma mina, - pois não
temos cá uma viatura, para transporte de tropas - até ao local, onde
rebentou a mina do dia dezasseis de Setembro, encontrou aí, a coluna em
viatura auto vinda de Porto Gole: que trazia um furriel e um soldado
clarim, para cá ficarem destacados. Em seguida cada grupo tomou as suas
direcções, e o regresso às suas origens, ouvindo a nossa malta, volvidos
alguns minutos, forte rebentamento; parecendo-lhes ser uma morte irada de
reconhecimento?
Era já mais de meio-dia,
quando o nosso grupo chegou, contudo nada sabiam...
Sabíamos sim, nós (os
que cá ficámos) que uma mina incendiária tinha explodido!, e que já tinham
sido pedidos socorros aéreos, havendo "manga" de feridos graves, e talvez
mortos (?) - isto captado pelo nosso operador de transmissões. Nós cá
também ouvimos o, rebentamento; daí a certeza exacta das horas!
Assim almoçámos, debaixo
de uma tensão geral de nervos. Do acidente somente sabíamos que a viatura!
tinha ardido, vindo os helicópteros nessa mesma tarde, e sendo uns atrás
dos outros durante bastante tempo.
No dia seguinte (seis),
ainda da parte da manhã, fazia o pessoal de Porto Gole, uma coluna à
viatura sinistrada, para recolha da mesma e outros objectos perdidos,
sofrendo forte emboscada no local, por um período de cerca de duas horas e
meia, e que nós ouvíamos perfeitamente em Bissá.
O balanço de todos estes
percalços (divulgado agora pelo comando da companhia), foi
assustadoramente assim:
- Mina; seis mortos e
vinte e um feridos com queimaduras, todos evacuados para a Metrópole.
- Emboscada; um morto, e
um ferido sem gravidade.
Tanto na mina como na
emboscada, foi precisa imediata colaboração da aviação, que desta vez
chegou de pronto, vindo dois bombardeiros, que ajudaram os helicópteros a
localizar o acidente. Num breve resumo, Bissá tem até este mês de Outubro,
e desde que começou a existir, militarmente em Abril deste ano, os
seguintes acidentes graves:
Sete mortos e alguns
feridos em Abril, e ainda nesse mês rebentou uma mina comandada, a poucos
metros deste destacamento, accionada por uma viatura que pertencia ao
batalhão de Mansôa, indo a viatura pelos ares, sendo feita em pedaços,
causando a morte a um furriel e fazendo alguns feridos; depois em
Setembro, mais uma viatura feita em pedaços, causando quatro mortos e
vinte e tal feridos.
Agora nos dois dias;
sete mortos e vinte e um feridos, e mais uma viatura incendiada.
Finalmente resumindo:
três viaturas inutilizadas; mais de vinte mortos; e uns cinquenta feridos
evacuados.
(Fontes mal informadas,
dizem que teriam morrido mais três homens da mina incendiária, na
Metrópole).
Para terminar esta
"série negra", uma coluna nossa que fazia o percurso Enxalé - Porto Gole -
Enxalé, quando regressava, já perto de Enxalé, no dia 22 de Agosto,
descobriu que tinha rebentado uma mina ao inimigo, ao proceder à sua
montagem na estrada, morrendo o que a estava a montar sendo feito em
pedaços, e deixando uma mina anti-carro, que a nossa coluna levou para o
quartel.
Este ainda não é o fim
de todos estes desaires, pois aqui em Bissá, se não temos mortos, os vivos
não têm que comer. Há mais de oito dias que não temos vinho, cerveja, ou
outros líquidos que se bebam.
O comer acabou:
estando-se a comer, ora carne de vaca, ora bacalhau com pão e... água!
* Em 5/6 uma viatura
que saiu de Porto Gole em direcção a Bissá fez accionar uma mina
anti-carro, que no momento causou 1 morto e 26 feridos. Posteriormente
morreram mais 10 militares. No dia 6 saiu de Porto Gole uma coluna para o
local de rebentamento da mina a fim de evacuar a viatura destruída; sofreu
uma emboscada de um G. IN cerca de 80 elementos tendo morrido mais um
militar e saído ferido outro. Não se conseguiu evacuar a viatura em
virtude de sermos obrigados a retirar visto o nosso efectivo ser muito
menor em relação ao IN..."