Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

12/06/1967
Bissá

 

São oito horas e alguns minutos da noite. Estou um pouco mais calmo do que durante o dia!, sentado em cima da cama, que fica num quarto onde dormem um radiotelegrafista e um enfermeiro - para onde fui convidado, pelos mesmos - os quais estimo pela consideração e amizade que têm por mim. Vou tentar descrever alguns acontecimentos dos últimos dias, visto que antes as dores de cabeça e nervos não me deixaram fazê-lo.

Há alguns dias os meus camaradas de pelotão, destacados em Bissá, durante uma patrulha na estrada Bissá - Porto Gole, avistaram um pequeno grupo de forças inimigas, na picada de Mato Corba, que após perseguição, fugiram...

Mesmo assim, capturaram cinco elementos inimigos que depois trouxeram para Porto Gole, onde estiveram até ao dia onze (ontem), altura em que tomaram rumo a Bambadinca.

O facto de termos cá prisioneiros, e tomarmos conta deles já é habitual para nós: porém para melhor segurança, durante a noite à prisão - que era uma arrecadação - foi preciso armadilhar uma janela, por dar uma escassa abertura e possibilidade de fuga dos ditos. Na primeira noite, nada de especial, mas na segunda noite, ou seja, no dia de Portugal - o que ficará para sempre memorável para mim - aconteceu um imprevisto, uma distracção, mas daquelas que têm feito perder a vida de tantos homens com, as suas próprias armadilhas. Estávamos uns três ou quatro juntos à entrada do depósito de géneros, quando vimos num quarto contíguo, chamas de labareda, e que pareciam ser dum mosquiteiro a arder. Os outros foram de volta, eu fiquei e fui por dentro ver de perto o que era: mas ao chegar lá, tinha tocado na armadilha - que constituía, de uma granada de mão ofensiva, presa a um fio de tropeçar - e... só passados instantes é que me lembrei da mesma! Vendo o perigo saltei pró chão e precisamente nesse instante, ela rebentava!...

Rastejei até fora da porta, e assim que me levantei comecei a dar gritos de informação, a indicar, que era eu o causador do estrondo, pois todos corriam para os abrigos, ao ouvirem o rebentamento, visto não saberem o que tinha acontecido:

Apesar de ter visto de perto a morte certa, tive também muita sorte em sair ileso, e só um furriel (Lopes) apanhou alguns estilhaços sem gravidade.

Certo é, que podia ter sido bem pior, se na mesa a dois metros da janela, estivessem já a jantar na sua sala, o alferes e os furriéis, pois saíram todos a correr quando houve o alerta de fogo.

O resultado do rebentamento foi enorme:

Imediatamente uma janela (a que tinha a granada) pelos ares; várias latas de conserva das rações de combate desfeitas; e os vidros partidos das janelas mais próximas; até o telhado foi todo pelos ares.

Mas não acaba aqui a tragédia: como o tempo tem estado chuvoso, logo no outro dia pelas cinco da manhã, o vento começou a soprar, pelo que acordei, levantei-me e fui ver se era chuva; ainda não era, mas vinha perto! Vesti-me a correr e fui directo ao depósito de géneros, já debaixo de fortes chuvadas e a toque de vento.

Começou a chover lá dentro, e eu debaixo dela a retirar o que podia, depois chegaram outros que me ajudaram a salvar da chuva tudo o que foi possível.

Estragando-se mesmo assim diversos géneros com a água.

Apanhei uma forte constipação, que juntamente com o esforço dispendido, me tem feito andar o corpo todo partido e com enormes dores de cabeça, pelo que só hoje me foi possível escrever estas linhas.

Esta tarde veio correio, o que para mim já não vinha há perto de quinze dias. Animei-me, e neste momento posso dizer que a disposição é boa!

É a guerra. É o estoicismo, por aquilo que vai sendo o nosso sacrifício!...

 
 

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