São oito horas e alguns
minutos da noite. Estou um pouco mais calmo do que durante o dia!, sentado
em cima da cama, que fica num quarto onde dormem um radiotelegrafista e um
enfermeiro - para onde fui convidado, pelos mesmos - os quais estimo pela
consideração e amizade que têm por mim. Vou tentar descrever alguns
acontecimentos dos últimos dias, visto que antes as dores de cabeça e
nervos não me deixaram fazê-lo.
Há alguns dias os meus
camaradas de pelotão, destacados em Bissá, durante uma patrulha na estrada
Bissá - Porto Gole, avistaram um pequeno grupo de forças inimigas, na
picada de Mato Corba, que após perseguição, fugiram...
Mesmo assim, capturaram
cinco elementos inimigos que depois trouxeram para Porto Gole, onde
estiveram até ao dia onze (ontem), altura em que tomaram rumo a Bambadinca.
O facto de termos cá
prisioneiros, e tomarmos conta deles já é habitual para nós: porém para
melhor segurança, durante a noite à prisão - que era uma arrecadação - foi
preciso armadilhar uma janela, por dar uma escassa abertura e
possibilidade de fuga dos ditos. Na primeira noite, nada de especial, mas
na segunda noite, ou seja, no dia de Portugal - o que ficará para sempre
memorável para mim - aconteceu um imprevisto, uma distracção, mas daquelas
que têm feito perder a vida de tantos homens com, as suas próprias
armadilhas. Estávamos uns três ou quatro juntos à entrada do depósito de
géneros, quando vimos num quarto contíguo, chamas de labareda, e que
pareciam ser dum mosquiteiro a arder. Os outros foram de volta, eu fiquei
e fui por dentro ver de perto o que era: mas ao chegar lá, tinha tocado na
armadilha - que constituía, de uma granada de mão ofensiva, presa a um fio
de tropeçar - e... só passados instantes é que me lembrei da mesma! Vendo
o perigo saltei pró chão e precisamente nesse instante, ela rebentava!...
Rastejei até fora da
porta, e assim que me levantei comecei a dar gritos de informação, a
indicar, que era eu o causador do estrondo, pois todos corriam para os
abrigos, ao ouvirem o rebentamento, visto não saberem o que tinha
acontecido:
Apesar de ter visto de
perto a morte certa, tive também muita sorte em sair ileso, e só um
furriel (Lopes) apanhou alguns estilhaços sem gravidade.
Certo é, que podia ter
sido bem pior, se na mesa a dois metros da janela, estivessem já a jantar
na sua sala, o alferes e os furriéis, pois saíram todos a correr quando
houve o alerta de fogo.
O resultado do
rebentamento foi enorme:
Imediatamente uma janela
(a que tinha a granada) pelos ares; várias latas de conserva das rações de
combate desfeitas; e os vidros partidos das janelas mais próximas; até o
telhado foi todo pelos ares.
Mas não acaba aqui a
tragédia: como o tempo tem estado chuvoso, logo no outro dia pelas cinco
da manhã, o vento começou a soprar, pelo que acordei, levantei-me e fui
ver se era chuva; ainda não era, mas vinha perto! Vesti-me a correr e fui
directo ao depósito de géneros, já debaixo de fortes chuvadas e a toque de
vento.
Começou a chover lá
dentro, e eu debaixo dela a retirar o que podia, depois chegaram outros
que me ajudaram a salvar da chuva tudo o que foi possível.
Estragando-se mesmo
assim diversos géneros com a água.
Apanhei uma forte
constipação, que juntamente com o esforço dispendido, me tem feito andar o
corpo todo partido e com enormes dores de cabeça, pelo que só hoje me foi
possível escrever estas linhas.
Esta tarde veio correio,
o que para mim já não vinha há perto de quinze dias. Animei-me, e neste
momento posso dizer que a disposição é boa!
É a guerra. É o
estoicismo, por aquilo que vai sendo o nosso sacrifício!...