Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

14/04/1967
Porto Gale

 

Logo de manhã, saiu uma coluna nossa, ao encontro de outra, que vinha de Enxalé com destino a Bissá. Aqui permanecerão, até de madrugada, altura que seguirão o seu destino. Com eles veio o nosso correio.

 

15/04/1967
Porto Gale

 

 

Dia trágico, este, para quantos se encontravam no "Inferno" de Bissá!

Em Porto Gole, estando de serviço à meia-noite, ouvi fortes rebentamentos, e enormes clarões, lá para as bandas de Bissá. Contudo não pude averiguar ao certo o local, onde durante mais de uma hora, foi cenário de constante tiroteio; porém como a nossa vida no mato assim nos habituou, dado que constantemente, se ouvem esses "brinquedos”, que a geração humana idealizou para matar o tempo, não dei conta de que fossem os meus companheiros o fundo daquele cenário. Procurámos entrar em contacto pela via rádio, mas eles não deram sinal, pelo que deduzimos ser alguma operação apoiada com os abuses de Mansôa, como muitas vezes estamos habituados. E ficou tudo na mesma, embora um pouco sobressaltados.

De manhã, e como estava previsto, saíram os homens, que na véspera tinham chegado, mais alguns deste destacamento, cuja missão era levar para Bissá, um, abastecimento de alimentos e munições: em resumo auxílio; mas sem ainda sabermos do que lá se passava.

Partiram às seis e às sete, chegaram cá civis para nos informarem, de que Bissá tinha sido atacado e havia feridos a necessitarem de ser evacuados de helicóptero, pois o rádio deles estava avariado desde o princípio e não podia dar comunicação para nós, e o nosso, naquele momento para cúmulo do azar, também não obteve ligação com o Comando em Enxalé, tendo de ir pessoal em duas viaturas até lá levar a mensagem, demorando portanto, o socorro.

Por volta do meio-dia e picos, chegou o primeiro helicóptero, e para espanto nosso, com mortos e não feridos como supúnhamos!

Depois mais três aterragens: foram sete mortos no total, todos africanos.

Houve mais cinco feridos, sendo quatro nativos do Pelotão da Polícia Administrativa, e um branco da nossa companhia, que foi evacuado para Bissau.

Mas aconteceu o que não esperávamos, e eu confesso: apesar de estar cá há pouco tempo; vieram-me as lágrimas aos olhos. Houve choro de todos, com gritos e desmaios das mulheres, como que adivinhando o que aconteceu, entraram de rompante, dentro do destacamento, numa altura em que procedíamos à pesagem, de peixe fresco chegado do rio... Tinha morrido um capitão de 2ª linha, mais seis homens nativos, todos pertencentes à Polícia Administrativa e todos eles com as famílias cá na Tabanca em Porto Gole. Morria o homem, em quem se tinham fortes esperanças, para acabar com a guerrilha inimiga na zona, - o capitão Abna Na Onça - por ser corajoso e respeitado por negros e brancos. Um homem que desde o início da guerra, vinha enfrentando com máxima inteligência, aqueles que o fizeram sofrer, matando-lhe toda a família; perseguindo, matando, e capturando armas. Este foi o seu fim, só porque estava do nosso lado!

 

16/04/1967
Porto Gale

 

 

Com os mortos ainda no "posto sanitário", eis que chegam de Enxalé, por ordem do Batalhão: o meu capitão, o meu grupo de combate, e mais um pelotão de nativos destacado no Xime, juntamente com um tenente-médico, com destino ao local, onde um punhado de heróis resistiu durante duas semanas, à fome e finalmente aos terroristas... para depois alguns morrerem.

Depois de uma passagem do médico, pelos homens em formatura, ouviu-nos e conferenciou com o nosso capitão, sobre o estado de saúde em que nós estamos, (bastante péssimo, pelo nosso aspecto). Em seguida e ainda de manhã, chegou uma mensagem, dizendo que os caixões estavam em Enxalé.

Vindo em seguida uma coluna com as sete urnas.

A coluna com os homens que se destinavam a Bissá, regressou a Enxalé, pois o médico chegou à conclusão que não encontrou os homens com resistência suficiente para aguentarem com a jornada!

 

17/04/1967
Porto Gale

 

 

Ainda de manhã chegaram cá de helicóptero, várias entidades do nosso exército, encarregadas de apreciar tão lamentável desastre. Mesmo assim querem, custe o que custar, tropas de novo em Bissá. Os elementos nativos, da Polícia e Milícia, apelaram, para que lhes fossem distribuídas, armas automáticas, morteiros, e bazucas, para poderem repelir os ataques de que foram alvos, e ainda o apoio da engenharia e de sapadores.

A população nativa mostrou-se exaltada, dizendo que assim não podiam continuar.

Chegou a hora do almoço, e com os mortos há bastantes horas por enterrar. Estava a comer, e chegou-me ao nariz um cheiro adocicado, talvez como as morgues (?) -, pois que não entrei em nenhuma até hoje!

O meu estômago não demorou a sentir-se, e daí a pouco tempo vomitei tudo quanto tinha ingerido.

Em seguida tentei ir dormir, mas fiquei doente e com febre, e à noite não jantei. Nunca me senti tão abalado até hoje, e sem médicos, nem sequer o apoio de nenhum enfermeiro!...

À tarde, quase noite, foram a enterrar, os mortos numas covas, fora do aquartelamento, indo o capitão numa lancha de Marinha, para ser enterrado em Bissau.

Foi uma modesta, mas sobretudo comovente, cerimónia.

 
 

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