Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

02/04/1967
Operação Rorodes-Mantém

 

Cerca, das cinco da manhã, o inimigo cercou-nos, e veio "brincar" connosco. Aí cheguei a ver-me obrigado abaixar a cabeça bem rente ao terreno, pois as rajadas assobiavam bastante perto. O ataque foi motivado talvez, por alguns tiros dados durante a noite, pelas nossas sentinelas -, dado que eles se encontravam perto, pois durante o dia anterior, os ouvíamos a derrubar árvores -, o seu ataque durou um quarto de hora, e ao qual nós respondemos prontamente com a nossa força bélica.

Em seguida a artilharia de Mansôa, bateu a zona, com algumas granadas de obuses.

Após o ataque, fizemos a nossa retirada, pelas sete e tal, que foi bastante escaldante, e com alguns homens a irem-se abaixo, tendo sido um transportado em maca, durante quase metade do percurso.

O itinerário era curto, mas o capitão que vinha à frente da coluna, com medo das emboscadas, fez-nos andar uns poucos de quilómetros a mais, e sem água, apanhando de novo a picada, a cerca de oitocentos metros, de onde tínhamos alterado o percurso. Era já meio-dia, e ainda nos faltavam alguns quilómetros para andar. O esgotamento era total na retaguarda. Cheguei a parar, juntamente com o meu capitão, mais uma dúzia de homens que não "davam mais".

 Desde que vou a operações, foi a primeira vez que eu fiquei exausto, sem forças nas pernas, e com a garganta seca! Como não podíamos mais, só nos restou esperar a aguardar, até que finalmente, lá chegou uma viatura com água, que nos levou até Porto Gole, onde chegámos às duas da tarde.

 

 

03/04/1967
Porto Gale

 

 

Depois de dois dias sem comer, o corpo precisa de se restabelecer: porém isso não aconteceu, e nós continuamos a comer a célebre "bianda", ou seja; arroz com sardinha de conserva. Não sei se conseguimos aguentar este parco alimento, durante mais tempo, pois esta comida não se dava a pessoas que só por si não fizessem nada, e ainda muito menos quando o corpo precisa de substâncias, para se aguentar, em operações de considerável esgotamento físico, como estas até aqui.

Reclamamos e nada resolvem. Mas eles, os que têm alguma responsabilidade, acima de nós, lá se vão orientando bastante melhor que nós, e à parte; e o nosso "patacão", (como dizem os indígenas) cá vai ficando... assim como a nossa saúde!

 

04/04/1967
Porto Gale

 

 

De comida já não vale a pena falar, quero dizer; escrever. Se como alguma coisa para viver, é com dinheiro do meu bolso. O que é fornecido pelo rancho, já me traz enjoado...

Passei a acumular o cargo da reparação e manutenção dos "petromaxes" (candeeiros) em serviço na tabanca. Não que isso me custe, mas sempre é mais uma responsabilidade, a mais que o restante do grupo, claro! Espero que em vez de piorar isto passe a melhor daqui em diante, senão creio não suportar este regime muito tempo.

 
 

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