Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

18/03/1967

 

Hoje houve uma ligeira instrução dos grupos de combate, nos terrenos próximos ao quartel previsão de breves acontecimentos, onde teremos de entrar em acção no "duro". Tudo isto foi da parte da manhã. De tarde descansámos e, já de noite, recebemos munições, para mais uma operação com partida prevista para amanhã.

 

19/03 a 21/03/1967
Operação ao Burontoni

 

 

Após descansar das duas e tal até às onze da manhã pouco mais fiz hoje, do que levantar-me e ir almoçar.

Estou sentado em cima da cama. São duas horas menos um quarto da tarde. Pela primeira vez não consegui, durante qualquer altura do trajecto, escrever algo para este meu diário. Pelo que com dois dias de atraso, Vou passar a descrever:

Levantámo-nos às cinco e meia da manhã, do dia 19 (Domingo de Ramos) e, depois de ligeiro pequeno almoço, abalámos em viaturas auto, na direcção de Bambadinca, e de lá pela estrada do Xitole, somente alguns quilómetros, para seguirmos depois a pé, durante mais de duas horas, até Dembataco, tabancas que atrás tinham sido descritas numa das minhas "viagens”, a partir do Xime, estando tudo destruída pelo inimigo. Lá almoçámos ração de combate, que levámos de Fá, para dois dias. O apetite era pouco, começando desde esse momento a ser alimentado a água.

Pela uma hora da tarde, saímos juntos com homens de Bambadinca e do Xime em direcção ao objectivo por intermináveis picadas da mata, sob um calor escaldante, com a sede e o cansaço a apertar connosco. Parámos às seis e meia, já de noite em plena mata. Lá ficámos de qualquer maneira até o dia nascer, retomando a marcha até Burontoni, onde chegámos, às onze horas da manhã. A água tinha-se acabado no dia anterior, por isso às oito, quando passámos por um riacho, o abastecimento foi feito por todos com muita alegria, para passadas duas horas, encontrarmos outra nascente. Em qualquer uma delas, tive de me encharcar, para arranjar o precioso líquido, embora fosse de cor e gosto um pouco suspeitos!  

Onze horas e alguns minutos mais um embate com elementos inimigos, numa casa de mato, que nós alcançámos depois de tremendo sacrifício. De imediato, houve desencadeamento de fogo, logo seguido da entrada das nossas tropas, causando-lhes numerosos mortos (oito confirmados), e fugindo os restantes, apavorados pela nossa chegada inesperada.

Capturámos o seguinte armamento: uma pistola metralhadora pesada e uma ligeira; vários carregadores e munições diversas; e ainda outros materiais, etc.

Retirámos, deixando tudo em chamas, em passo acelerado, tendo alguns desmaiado, em parte devido ao calor, mas também por falta de água, contando-se entre eles o nosso capitão e um sargento. Quando tornámos a passar pelo riacho, que sabíamos existir; parecíamos que estávamos loucos, procurando a água com ânsia, mesmo com ela quase preta, do calcar dos nossos pés, lá estivemos mais de uma hora, para abalarmos depois, bastante mais frescos, a caminho de Dembataco, onde chegámos às sete e tal da noite. Pelo caminho, encontrámos mais uma nascente, com um curso de água, onde parámos e nos abastecemos de novo. Mais uma vez, corridas loucas ao encontro de água, e como sempre a ser preciso penetrar nela para a possuir: e eram sempre duas rações que tinha de arranjar; a minha e a do meu colega Saraiva, dos Moínhos de Carvide, que vinha completamente abatido, e o qual ajudei nas últimas horas de, marcha, amparando-o e trazendo-lhe o seu equipamento.

Nós chamávamos-lhe o "terrível", mas ele era bom rapaz e, foi ajudando os superiores, que se foi abaixo!

Nesta altura, faltava uma hora para se atingir o ponto de partida.

Parti de Dembataco tremendamente abatido e exausto, em direcção à estrada do Xitole - Bambadinca, e depois de passarmos uma ponte de paus ligados uns aos outros. Aí deveriam, estar umas viaturas que nos levariam a Fá. Não estavam. Partimos aos tombos até Bambadinca, onde chegámos à meia-noite e foram só os teimosos do meu grupo de combate, os outros, lá ficaram a aguardar as viaturas. Mas nós, uma vez chegados, tornámos atrás, a fazer segurança às viaturas, que iam buscar os nossos colegas, que entretanto se tinham posto a caminho por ser perigosa a sua permanência no local onde ficaram.

Chegámos ao quartel à uma da manhã, e assim terminou a "Operação Guindaste" na zona Burontoni.

A seguir foi-nos servida uma saborosa refeição, que há dois dias desconhecíamos.

Esta foi sem dúvida uma prova de resistência, superior às minhas capacidades, e que aguentei bem, muito embora na parte final, tivesse que acabar estourado fisicamente, pois foram mais de dezassete horas consecutivas, em andamento sob um escaldante clima tropical, no qual vi cair homens mais fortes do que eu. Termino acrescentando, que neste caso não teria havido tantos excessos, se aos primeiros esgotamentos, nos tivessem atendido, enviando-nos a aviação que nos tinha sido prometida antes, ou os helicópteros que pedimos para evacuação daqueles que estavam em dificuldades. Segundo nós soubemos depois, a nossa transmissão que emitimos do mato, só foi decifrada a hora que vínhamos a chegar.

 
 

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