Após descansar das duas
e tal até às onze da manhã pouco mais fiz hoje, do que levantar-me e ir
almoçar.
Estou sentado em cima da
cama. São duas horas menos um quarto da tarde. Pela primeira vez não
consegui, durante qualquer altura do trajecto, escrever algo para este meu
diário. Pelo que com dois dias de atraso, Vou passar a descrever:
Levantámo-nos às cinco e
meia da manhã, do dia 19 (Domingo de Ramos) e, depois de ligeiro pequeno
almoço, abalámos em viaturas auto, na direcção de Bambadinca, e de lá pela
estrada do Xitole, somente alguns quilómetros, para seguirmos depois a pé,
durante mais de duas horas, até Dembataco, tabancas que atrás tinham sido
descritas numa das minhas "viagens”, a partir do Xime, estando tudo
destruída pelo inimigo. Lá almoçámos ração de combate, que levámos de Fá,
para dois dias. O apetite era pouco, começando desde esse momento a ser
alimentado a água.
Pela uma hora da tarde,
saímos juntos com homens de Bambadinca e do Xime em direcção ao objectivo
por intermináveis picadas da mata, sob um calor escaldante, com a sede e o
cansaço a apertar connosco. Parámos às seis e meia, já de noite em plena
mata. Lá ficámos de qualquer maneira até o dia nascer, retomando a marcha
até Burontoni, onde chegámos, às onze horas da manhã. A água tinha-se
acabado no dia anterior, por isso às oito, quando passámos por um riacho,
o abastecimento foi feito por todos com muita alegria, para passadas duas
horas, encontrarmos outra nascente. Em qualquer uma delas, tive de me
encharcar, para arranjar o precioso líquido, embora fosse de cor e gosto
um pouco suspeitos!
Onze horas e alguns
minutos mais um embate com elementos inimigos, numa casa de mato, que nós
alcançámos depois de tremendo sacrifício. De imediato, houve
desencadeamento de fogo, logo seguido da entrada das nossas tropas,
causando-lhes numerosos mortos (oito confirmados), e fugindo os restantes,
apavorados pela nossa chegada inesperada.
Capturámos o seguinte
armamento: uma pistola metralhadora pesada e uma ligeira; vários
carregadores e munições diversas; e ainda outros materiais, etc.
Retirámos, deixando tudo
em chamas, em passo acelerado, tendo alguns desmaiado, em parte devido ao
calor, mas também por falta de água, contando-se entre eles o nosso
capitão e um sargento. Quando tornámos a passar pelo riacho, que sabíamos
existir; parecíamos que estávamos loucos, procurando a água com ânsia,
mesmo com ela quase preta, do calcar dos nossos pés, lá estivemos mais de
uma hora, para abalarmos depois, bastante mais frescos, a caminho de
Dembataco, onde chegámos às sete e tal da noite. Pelo caminho, encontrámos
mais uma nascente, com um curso de água, onde parámos e nos abastecemos de
novo. Mais uma vez, corridas loucas ao encontro de água, e como sempre a
ser preciso penetrar nela para a possuir: e eram sempre duas rações que
tinha de arranjar; a minha e a do meu colega Saraiva, dos Moínhos de
Carvide, que vinha completamente abatido, e o qual ajudei nas últimas
horas de, marcha, amparando-o e trazendo-lhe o seu equipamento.
Nós chamávamos-lhe o
"terrível", mas ele era bom rapaz e, foi ajudando os superiores, que se
foi abaixo!
Nesta altura, faltava
uma hora para se atingir o ponto de partida.
Parti de Dembataco
tremendamente abatido e exausto, em direcção à estrada do Xitole -
Bambadinca, e depois de passarmos uma ponte de paus ligados uns aos
outros. Aí deveriam, estar umas viaturas que nos levariam a Fá. Não
estavam. Partimos aos tombos até Bambadinca, onde chegámos à meia-noite e
foram só os teimosos do meu grupo de combate, os outros, lá ficaram a
aguardar as viaturas. Mas nós, uma vez chegados, tornámos atrás, a fazer
segurança às viaturas, que iam buscar os nossos colegas, que entretanto se
tinham posto a caminho por ser perigosa a sua permanência no local onde
ficaram.
Chegámos ao quartel à
uma da manhã, e assim terminou a "Operação Guindaste" na zona Burontoni.
A seguir foi-nos servida
uma saborosa refeição, que há dois dias desconhecíamos.
Esta foi sem dúvida uma
prova de resistência, superior às minhas capacidades, e que aguentei bem,
muito embora na parte final, tivesse que acabar estourado fisicamente,
pois foram mais de dezassete horas consecutivas, em andamento sob um
escaldante clima tropical, no qual vi cair homens mais fortes do que eu.
Termino acrescentando, que neste caso não teria havido tantos excessos, se
aos primeiros esgotamentos, nos tivessem atendido, enviando-nos a aviação
que nos tinha sido prometida antes, ou os helicópteros que pedimos para
evacuação daqueles que estavam em dificuldades. Segundo nós soubemos
depois, a nossa transmissão que emitimos do mato, só foi decifrada a hora
que vínhamos a chegar.