Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

04/03/1967
Enxalé/Porto Gale

 

Neste sábado até às quatro da tarde, tudo foi normal. Estava de "cabo de dia" e, não fazia conta de sair pró mato; mas saí, e em direcção a Porto Gole, onde chegámos às seis da tarde. Comemos uma mal confeccionada refeição, de arroz com ervilhas e sardinhas de conserva, regada com o já célebre vinho baptizado!

Como na tropa o lema é: desenrasque-se quem puder... Eu para passar parte da noite, que teria de ser ao ar livre e, sobre o chão, tal como andava - pois estava prevista uma saída pela madrugada - então "orientei" da melhor maneira, e o mais disfarçado possível, material para descansar o corpo, que se resumiu: a um colchão, um cabeçalho, uma manta, e um lençol. Tudo em pontos diferentes, que depois lá ficaram, até os donos os encontrarem. Assim pude passar melhor a noite, juntamente com o meu camarada Alves, enfermeiro do meu grupo de combate.

 

05/03/1967
Porto Gole/Enxalé

 

 

Saímos a pé, por uma enorme bolanha, toda coberta de capim com mais de dois metros de altura, pelas três e meia da madrugada, com destino a Bissá, onde chegámos às sete e meia, para fim quase exclusivamente da compra de gado bovino. Instalámo-nos em redor das, tabancas, para montar segurança ao capitão da Cart.ª nr. 1439, de Enxalé, enquanto negociava com os nativos, visto os mesmos, tanto nos venderem a nós, como aos nossos inimigos.

Foram mais de cinco horas, de aldeia em aldeia, tendo o máximo cuidado na operação, dos cercos, pois o inimigo é familiar aos habitantes, chegando a passar as noites com eles.

Em determinada "moransa", (habitação comum) foi mesmo capturado um, que tentava fugir, apesar da nossa vigilância.

Depois desta operação regressámos a, Porto Gole, mas por caminhos diferentes, para fugir às emboscadas, que o inimigo costuma fazer nesta zona. Talvez devido à mudança de itinerário não houve contacto. O calor era intenso, e o percurso parecia não mais ter fim, que nos obrigou a passar diversas bolanhas, até um rio, que além da pouca água na altura, de uma margem à outra, um autêntico lamaçal. Foi uma jornada bastante dura, e com imenso desgaste de energias até à exaustão.

Demoraram três horas os nossos esforços, e finalmente chegámos pelas quatro horas a Porto Gole.

Este dia foi terminar a Enxalé, onde jantámos e tomámos banho, o que bem necessitávamos, após tão grande sacrifício, com tão pouco tempo de Guiné.

Hoje pude avaliar, quão grandes, teriam sido as dificuldades, que os nossos antecessores sofreram, e eu ainda terei de sofrer (?). A água, que costuma ser bebida com comprimidos e filtrada, bebeu-se por todos, sofregamente sem olhar a limpeza e origem.

Bebia-se todo o líquido que nos aparecia, quer nas poças do terreno, ou nos poucos cursos de água, fosse ele da cor que fosse!

 
 

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