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Abel de Jesus Carreira Rei |
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24/02/1967
Enxalé |
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Estou à beira do rio
Geba. A maré está muito baixa, e só a poderemos atravessar daqui por três
horas.
Saímos logo de manhã do
Xime, onde estivemos até hoje, indo em seguida para Enxalé.
No Xime, a população
constituída por diversas raças, fica à beira deste rio, que é a base da
sua alimentação.
Quando chegámos os
nativos já partiam com grandes molhes de peixes enfiados em varas. Como a
maré está baixa, vê-se nas margens lodosas uma enorme multidão de espécies
de caranguejos “cacres" – designação dada pelos indígenas a uma espécie de
crustáceos - com uma só perna superior, e que também fazem parte da sua
alimentação, sendo misturados com a “bianda” ou comida. (Para nós
militares, este termo – bianda – estava relacionado com o arroz, que era a
base da alimentação da população nativa).
Depois de passarmos o
rio numa lancha da Marinha, L.D.M. (Lancha de Desembarque Média), chegámos
a Enxalé, prosseguindo através duma bolanha, (grande extensão de terreno
plano, onde abunda o capim) durante meia hora.
Mais um quartel, em
parte composto por militares, da nossa ilha da Madeira, e mais uma aldeia
indígena.
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25/02/1967
Enxalé |
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Fiz a mais dura viagem
em viaturas do nosso Exército, numa estrada com quase trinta quilómetros,
cheia de buracos originados pelas chuvas, (e talvez minas?) que nesta
época estão secos, chegando alguns a ter perto de um metro de fundo. Fomos
de Enxalé até Porto Gole, ficando eu emboscado com a minha secção, uns
quilómetros antes.
Fomos buscar homens
vindo de uma operação, que tinha começado oito dias antes, nas matas do
Sará, e onde estiveram com mais companhias, batendo a zona, que é povoada
de forte terrorismo.
Parece não ter havido
baixas da nossa parte.
Foi capturado, um
importante hospital militar, no meio da mata, composto do mais moderno
equipamento, e duma variedade extraordinária de medicamentos.
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26/02/1967
Enxalé |
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Ao sairmos de Fá,
ninguém nos informou, quais eram as dificuldades que vínhamos cá
encontrar, absolutamente nada! E, deste modo, aqui andamos desprezados,
pois uma vez cá, os nossos superiores tratam de se safar, não ligando aos
nossos suplícios: Foi preciso reunirmos todos, e quase haver zanga, para
nos arranjarem uma manta, onde nos pudéssemos enrolar durante a noite.
Claro que o resto já é nosso conhecido há dias: o bastante incómodo chão!
Como se tudo isto não
fosse o suficiente, há ainda a miscelânea de insectos que nos dificultam o
nosso bem-estar, dado que o nosso corpo ainda não se encontra adaptado às
circunstâncias. Isto é, aclimado. "Ele", depois destes carinhos, começa a
mostrar o trabalho da bicharada a que estamos expostos. Para mim, o meu já
meteria nojo, visto fora deste ambiente: cheio de vermelhões, desde a
testa, onde se vêem pequenos altos, até à parte debaixo dos pés,
obrigando-nos a constante coçar, deixando por vezes a pele cheia de
sangue.
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Para Cima...
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