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Abel de Jesus Carreira Rei |
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19/02/1967
Xime |
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Domingo; o segundo na
Guiné. Um dia diferente dos outros. Não tanto por ser o dia do Senhor -
mas sim; um para recordar.
Levantámo-nos às cinco
da manhã, e saímos uma hora depois preparados para a guerra, sem sabermos
para onde, como, e para quê: são as incógnitas desta vida...
Acompanhados por outra
companhia e com viaturas fomos de Fá até Bambadinca, e de lá até Amedalai,
abalando depois em direcção ao Xime. Aí almoçámos e passámos a noite.
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20/02/1967
Xime |
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De madrugada, entre as
três e as cinco horas houve "ronco" lá para o Norte do Geba - aqui é a
parte Sul - numa densa mata de nome Sará. Não estando habituado a este
género de "festa", levantei-me e vim apreciar cá fora o espectáculo,
ficando um pouco sobressaltado.
Depois do
pequeno-almoço, saímos para montar segurança a um pelotão que ia para um
destacamento.
O percurso é péssimo e
perigoso. Costuma ser muitas vezes armadilhado com minas pelo inimigo,
mesmo perto do quartel, contando-se já vários mortos e viaturas
destruídas. O chão é picado cuidadosamente em todo o percurso e todos os
dias.
Estou sentado num monte
de "baga baga" ou termiteira, construção de terra habitada pelas formigas
térmites, - insectos que atingem cerca de vinte milímetros de comprimento,
com boca de turquês com a qual removem e elevam o solo a alguns metros
chegando a mais de três metros e meio de altura. São germinados por um só
- a rainha - de pele flexível, que atinge o comprimento de vinte
centímetros, por três de espessura, e que vive debaixo deste monte ao
centro, onde tem um espaço de terra limpo. O comer é-lhe trazido pelas
obreiras, pois não se move, visto o corpo, ser muito maior do que as
pernas.
De onde estou emboscado,
avisto três camaradas meus. São talvez dez horas da manhã.
Existe aqui "manga de"
palmeiras (grande quantidade) e denso arvoredo dos lados, onde se avistam
muitos macacos-cães, saltando de árvore em árvore, fazendo latidos.
Ouve-se o cantar duma grande variedade de aves.
Pela tarde, fui
novamente montar segurança, a viaturas vindas de Bambadinca. Fazia
bastante calor, e o peso do almoço, fez-me transpirar imenso. Assim que
parei, descalcei-me para os pés estarem à vontade e refrescarem, embora os
mosquitos não deixassem de mos picar; visto eles aqui serem aos milhares!
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21/02/1967
Xime |
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Neste quartel de Xime,
onde temos permanecido desde a saída de Fá, está-se em contacto permanente
com os indígenas, que vivem à entrada numa tabanca, com enorme população,
sendo alguns deles soldados dum pelotão de nativos. Já percorri a mesma, e
tive o primeiro contacto com as "bajudas" (raparigas adolescentes nativas)
-, em companhia de camaradas mais velhos, que pertencem à Companhia de
Caçadores nr. 1550, cá destacada - e comecei a papear o crioulo. Como
curiosidade tive nos braços, um garoto mulato, talvez fruto da passagem,
dos primeiros militares brancos, por cá, no início da guerra.
Conheci cá um rapaz dos
Pousos - Leiria, o qual me acomodou, com cama e roupa, e se fez meu grande
“amigalhaço" ou amigão, (que em linguagem de caserna, quer dizer: grande
amigo). Não obstante, a minha terra ser longe da dele, e se calhar nunca
mais nos tornarmos a encontrar isto cá na guerra é assim: muitos
quilómetros na nossa terra-mãe, onde se nos encontrássemos não nos
daríamos conta, torna-se em mesquinhos metros nesta terra de dificuldade!
De tarde, mais uma saída
de reconhecimento, durante hora e meia.
Enviei duas epístolas
(aerogramas) para casa, dando notícias minhas, servindo somente para dizer
presente!
Levaram a direcção de
Fá, pois a eles não interessa saberem onde estou; mas sim como...
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Para Cima...
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