Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

14/02/1967

 

Será talvez doravante, que eu começarei a descrever algo além dos limites, das leis ditadas por quem não sofre estes martírios, obrigando-nos a admitir tudo que os superiores - por serem superiores - pensam poder abusar. Além disso, um soldado, tem sempre tudo e todos contra ele, sem ninguém que o defenda. Infelizmente a guerra que nós, os pobres soldados fomentamos, alastra-se cada vez mais por isso; e se morrem alguns, é talvez mais por se sentirem desorientados sem que tenham alguém por eles. Castiga-se como se andássemos na recruta, ou pior ainda, e demais, castigos severos. Não é disciplina, é abuso, daqueles que por inferiores nada podem recusar!...

 

16/02/1967

 

 

Vieram finalmente notícias! Duas epístolas dos familiares, e um jornal: constituiu para mim exuberante alegria e de momento comovi-me; pois já tinha os meus mais perto de mim. Por vezes a falta de notícias, para nós mesmos não nos traz tormentos nem saudades, é como que embriagados pelas circunstâncias a que estamos a ser submetidos. Parece-nos ou, quer-nos parecer, que não temos ninguém além de nós; isto é só para aqueles que, ou mais mentalizados, ou ainda sabendo não ter outro remédio senão conformar-se, desfrutando dum ambiente, que não lhes é, nem nunca foi próprio. Mas há os que mais fracos de espírito - e não conseguindo passar o exame, a que a comunidade nos conduziu - vivem hora após hora, pensando, trazendo à memória com palavras de saudade e compaixão, a recordação dos seus. São esses então que nos refrescam a memória e nos obrigam a lembrar aquilo que a todo o transe tentamos esquecer.

 

17/02/1967

 

 

Estava a jantar. Eram quase sete da tarde. Houve correio: um grande maço de correspondência. Acabei o jantar à pressa, e fui ouvir a leitura dos endereços a quem se destinavam.

 Neste dia obtive resposta ao correio enviado, deste interior da Guiné. Natural alegria, melhor moral, portanto!

Fiz hoje a minha primeira saída, com o meu grupo de combate - o segundo doravante pois esta Cart.ª foi dividida em quatro grupos - para uma patrulha de reconhecimento, e adaptação do interior do mato, da Guiné, a que iremos estar sujeitos, durante a nossa missão.

Apreciei pela primeira vez, uma grande plantação de bananeiras.

 
 

18/02/1967

 

 

Chegaram-me hoje notícias regionais, em dois jornais da minha terra. É sempre com grande prazer, que se lêem os mais diversos apontamentos da vida e usos, daqueles que conhecemos, e é como se durante a leitura, estivéssemos mais perto da nossa terra!

 São momentos de completo esquecimento da guerra, e são ao mesmo tempo, essas letras que evitam a fuga da nossa recordação, da imagem dos queridos e bons amigos, que nos aconselham calma, palavras cheias de moralidade!

 ...Fica aqui o meu agradecimento, a todos quantos me ajudam, quase sem darem conta.

 
 

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