Marinha Grande na NET

Abel de Jesus Carreira Rei

01/02/1967
Navio Uíge - Oceano Atlântico

 

São dezasseis horas e cinquenta minutos, do dia 1 de Fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e sete. Já só se avistam águas, além deste navio - o Uíge.

Estas são as primeiras letras que me saiem dos dedos após o embarque, no cais da Rocha Conde de Óbidos. Depois de um almoço que me deixou estupendamente satisfeito, foi um banho juntamente com um pequeno descanso que bem precisava; visto que quando embarquei trazia fortes dores de cabeça e mau estar, em virtude da falta de descanso antes da partida.

Navio Uíge - unidade transportadora de ida e volta das nossas tropas.

 

02/02/1967
Navio Uíge

 

 

Encontro-me já bastante melhor. A comida desde o princípio está a ser óptima, com vinho e fruta em abundância e sobretudo com o máximo de asseio e muita cordialidade por parte dos tripulantes. Houve a primeira formatura, para instruções acerca de qualquer acidente no navio. Tomámos os dois primeiros comprimidos - que vão ser semanais - contra o paludismo.

 

03/02/1967
Navio Uíge

 

 

Nos dias anteriores, só se tem navegado em águas bastante agitadas, o que fazia o navio dar enormes balanços, apesar de eu vir instalado em camarotes, enquanto os soldados vêm nos porões, em camas de madeira, que mais parecem caixotes.

Sendo portanto neste dia a ocasião em que o navio dá menos balanços, pois atravessamos mar calmo, como, ainda não se tinha visto. Já se está também a sentir calor.

 
 

Para Cima...

04 e 05/02/1967
Navio Uíge

 

 

A vida aqui dentro torna-se bastante monótona!

Há imensas saudades de terra, pois além de água, só se tem avistado alguns navios, assim como a enorme quantidade de peixes-voadores, que passam a arrasar por cima das nossas cabeças dum lado ao outro do navio. O meu pensamento é chegar à Guiné, pois isto já me está a enfadar.

Escrevi hoje uma carta dirigida a familiares e amigos, a dar as despedidas, e saudá-los pela primeira vez.

Porém só a poderei enviar de Bissau.

Quando parti de casa, com a mochila às costas e uma mala vermelha com as minhas coisas, deslocando-me a pé para o comboio que me levaria a Lisboa, e ao passar o pinhal, donde ainda avistava o meu lugar onde cresci, olhei para trás e despedi-me do meu povoado, dizendo para comigo: até breve!

Estas foram as despedidas possíveis, pois não tive coragem de dizer absolutamente nada a ninguém antes de partir. Quis sofrer sozinho: por não saber explicar o que vinha fazer, para onde, e porquê?
Espero apagar a solidão, descrevendo o meu dia a dia, enquanto Deus me der forças e saúde para tal.

 

06/02/1967
Navio Uíge / Bissau

 

 

Poucas habitações, muitas árvores, dois cais marítimos; foi o que avistei pelas dez horas. Era a capital da Guiné! Seriam talvez três da madrugada quando navegámos águas Guineenses...

Depois, um pequeno ilhéu, tendo ao centro um obelisco, e finalmente, atracámos. Ficando ao meio do rio Geba, tendo dum lado: a ilha do Rei; e do outro: Bissau.

Por volta, das quatro da tarde, abalou o navio "Alfredo da Silva", que já estava atracado quando chegámos.

Durante o dia fez muito calor. Agora perto da noite, sente-se o tempo mais fresco, e com mostras, de nevoeiro. São seis horas da tarde e parece que vamos cá ficar esta noite. Tivemos o primeiro contacto com nativos em terras Africanas, por ora, simples empregados de barcos que transportam a carga do rio para fora; a meu ver, pobres diabos "mal vestidos" que só nos pedem coisas, entre elas - dinheiro de Lisboa.

Enviei duas cartas para casa, e comprei uns selos.

 

07/02/1967

 

 

Levantámo-nos eram três da manhã e saímos finalmente de Bissau - sem irmos lá - subindo rio Geba acima, pelas seis horas, numa lancha L.D.G. (Lancha de Desembarque Grande), sendo patrulhados por marinheiros. O pormenor mais importante desta viagem, foi na altura em que os homens da tripulação, destruíram uma canoa dos turras, com seis tiros, obrigando toda a malta a deitar-se instintivamente.

Desembarcámos em Bambadinca pelas treze horas, e daí seguimos para Fá, onde iria ser o nosso primeiro aquartelamento na Guiné.

Depois dum refrescante banho já depois de o sol se pôr, numa fonte de água fresca próxima do quartel - e, segundo dizem, a melhor da província - comemos a primeira refeição cerca das dez horas da noite. Apesar da fome que passámos, o nosso maior inimigo, neste início, é o calor, pois vínhamos do frio e quase todos o sentimos.

 
 

Para Cima...

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