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A ARTE DE GERIR PESSOAS

 POR CATARINA SANTOS

  

Gerir pessoas é, sem dúvida, uma forma de arte. E motivá-las não é uma tarefa fácil. Conheça a opinião dos especialistas na matéria 

 O Fórum de Recursos Humanos reuniu diversas personalidades e teve como objectivo a discussão e a partilha de ideias e conceitos. Não há dúvida de que é bastante vantajoso trocar experiências e saberes, de forma a enriquecer o conhecimento destes profissionais, bem como de todos os que se interessam por este tema. E nada melhor que um fórum para que isso possa acontecer. Desde o que se pratica lá fora ao que se passa cá dentro, tudo foi discutido, mas... não chega. É preciso continuar com estudos e investigações. É preciso trocar impressões continuamente. A seguir poderá constatar o que de mais importante e relevante foi dito pelos especialistas.   

Desenvolvimento estratégico e qualidade

  FRANCISCO LOPES dos SANTOS

Director-Geral da Agesfal

  Os desafios actuais sentidos no mundo da gestão só serão ultrapassados através da estratégia. Deve ser definido qual o destino a alcançar e operacionalizá-lo.

As diversas áreas da empresa deverão ser integradas na prossecução do objectivo estratégico. Muitas empresas falham na execução da sua estratégia. Enquanto a integração for feita a partir de objectivos operacionais, estaremos a falar de táctica, e não de estratégia.

Está na eminência um novo paradigma de gestão. A estratégia, a organização, a qualidade e os recursos humanos são os quatro aliados do sucesso. É um sistema integrado e denominar-se-á DEIS (Destino Estratégico, Exterior, Interior e Saber), envolvendo todas as perspectivas através das quais se pode analisar ou dirigir uma empresa. Cada uma destas perspectivas deve ser convertida em objectivos. A dinâmica desta sistematização é constituída por um duplo ciclo, que se auto-abastece e revigora. É um modelo integrado e orientador da gestão e da estratégia da organização em simultâneo. Isto significa que a estratégia se tornou operacional. Como resolver a questão da coerência e consistência? Com a gestão da qualidade. É necessário que os pilares da gestão de recursos humanos deixem a visão tradicional e passem a uma visão integrada.

Não esquecer que os recursos humanos são o motor de desenvolvimento, mas também podem ser um entrave, quando não partilham, por assimilação ou por princípio, os valores e o paradigma cultural da organização que integram. Assim, as pessoas são o impulsionador da estratégia organizacional.   

 Contribuição dos RH na prossecução de resultados

ANDREW B. Hill

Consultor na Dinâmia

 

 As políticas de recursos humanos podem contribuir para a produtividade e para o lucro de uma empresa?

A West and Patterson divulgou um estudo efectuado no sector industrial britânico. O ano de referência foi 1994, tendo sido igualmente analisados os três anos anteriores, bem como os três posteriores. O objectivo deste estudo era identificar quais os factores que influenciavam a produtividade e a obtenção do lucro nas empresas em 1996. Chegou-se à conclusão de que existiam dois ramos ligados aos recursos humanos que se relacionavam directamente com a satisfação no emprego, em 1994, e com a produtividade, em 1996: o recrutamento sofisticado, a selecção e a formação e empregos mais enriquecidos, que possibilitem uma maior responsabilidade e um maior empenho no trabalho em equipa. É uma forma de reconhecer a importância das políticas de recursos humanos na prossecução da produtividade e do lucro.

O estudo foi efectuado na indústria britânica, e o que aí se aplica poderá não ser viável noutro país. Mas se o gestor de recursos humanos fizer uma pequena investigação, poderá facilmente concluir se estes resultados serão ou não adaptáveis ao seu caso particular. A West and Patterson analisou as práticas de gestão dos recursos humanos e a sua relação na produtividade/lucro medindo as diferenças entre um conjunto de empresas estudadas, e não apenas uma empresa específica. Mesmo com estas restrições, é possível admitir que o recrutamento sofisticado, a selecção e a formação são práticas usuais.

Quanto ao enriquecimento de um posto de trabalho, pode ser ou não praticado em todas as empresas. A insatisfação no trabalho está directamente relacionada com o absentismo e o turnover, no entanto uma maior satisfação não significa uma maior performance.

 

De acordo com a teoria de motivação de Hertzberg, tanto os factores intrínsecos como os extrínsecos, associados à satisfação, são também capazes de provocar insatisfação. Esta teoria está já ultrapassada, pois a satisfação ou insatisfação são uma dimensão bipolar. O enriquecimento do posto de trabalho tem sido utilizado, muitas vezes indevidamente, como uma forma de aumentar a motivação e a satisfação. Cada pessoa é um caso particular e este tipo de medidas poderá surtir efeitos diferentes. Assim, o gestor de recursos humanos tem necessidade de investigar com que tipo de empregados está a lidar para poder decidir que tipo de medidas deve tomar. A mesma conclusão pode ser tirada quando se relaciona o enriquecimento do trabalho com um aumento da motivação, conduzindo a uma maior performance.

De acordo com a visão cognitiva da motivação no trabalho, a performance, em termos de qualidade, depende de dois factores: habilidade e esforço. Quanto maior a habilidade e esforço de um trabalhador, melhor será a performance. Mas tem de ser recompensada.

 Compensação e gestão estratégicas dos RH

PEDRO BETTENCOURT DA CÂMARA

Director-Geral da PCA Consultor

 

 As pessoas são um activo estratégico das empresas. Só pensando assim se pode gerir estrategicamente os recursos humanos. Com o advento da era do conhecimento, esta perspectiva generalizou-se nas economias ocidentais. No entanto, a prática mais corrente é fazer-se gestão operacional, e não estratégica.

Na gestão operacional elabora-se um plano para se verificar se estão a ser cumpridos os objectivos. Na gestão estratégica procura-se alinhar e mobilizar as pessoas para atingirem um conjunto de objectivos para um maior desempenho.

Recuando no tempo, à era industrial, Karl Marx definia o salário em função do valor criado, deduzido da mais-valia apropriada pelo patrão. Hoje, ainda se aplica esta equação, mas com melhorias.

Com o advento do Estado-providência, estendeu-se uma rede de protecção aos trabalhadores determinante da forma como actualmente se encara o trabalho. Até então, o trabalho era sinónimo de sobrevivência; hoje em dia, é suposto ser sinónimo de realização.

A criação de grandes espaços económicos leva a uma maior optimização de recursos. A evolução das economias de serviço, a era do conhecimento, levou a uma modificação da estrutura da força de trabalho; as pessoas estão mais educadas, mais exigentes.

Tem de haver uma movimentação up-market dos recursos humanos. Assiste-se já a uma alteração do pacto social nas empresas, onde existirá uma nova forma de relação de trabalho. A ideia de emprego para toda a vida deixou de ser viável; assegurar a empregabilidade implica preocuparmo-nos primeiro connosco, a seguir com a nossa carreira e só depois com o empregador.

A relação de trabalho passou a assentar na convergência mútua de interesses.

Segundo Peter Drucker, as empresas precisam mais dos trabalhadores com conhecimento que estes precisam delas. Consequentemente, a gestão de recursos humanos tem como função atrair, reter e desenvolver pessoas.

Teremos, assim, a equação de Karl Marx actualizada, onde no salário se incluem recompensas intrínsecas e uma percentagem da mais-valia obtida pela empresa. Entra-se em linha de conta com dois factores críticos de sucesso: quem partilha os êxitos necessita de recompensas intrínsecas. Perspectiva-se assim um novo sistema de recompensas.

Sistemas de recompensas

ESTÊVÃO DE MOURA

Professor na Universidade Moderna

 

 Qual o impacto da gestão de recursos humanos nas empresas? Estêvão de Moura investigou as características, as políticas e as práticas da gestão de recursos humanos, visando concluir sobre o desempenho em empresas de grande e média dimensão em Portugal.

Foram considerados dois grupos de empresas: num encontram-se empresas que durante cinco anos foram consideradas as 500 maiores e no outro estão as principais empresas do sector financeiro. Foi-lhes enviado um questionário. Com o auxílio de um modelo analítico que relaciona os atributos (práticas e políticas de recursos humanos) com um sistema designado de recursos humanos é possível estabelecer uma relação. Apenas foi estudado o nexo causal dos resultados e o objectivo consiste em pôr todos estes aspectos em conexão. Foram considerados 14 atributos, entre eles a avaliação e desempenho, o treino, a gestão de retribuição e a inovação. Existiam nove condições contextuais, salientando-se a gestão de qualidade, a visão estratégica e a dimensão da empresa.

Os resultados analisados são do tipo económico-financeiros e de produtividade. O desempenho é uma função do sistema de gestão de recursos humanos aliado às condições contextuais. Concluiu-se que a dimensão não influencia o grau de disseminação das políticas e práticas de recursos humanos. Verifica-se também que a criatividade escasseia; parece que todos os gestores de recursos humanos andaram na mesma escola. Um outro aspecto importante é o facto de não existirem grandes diferenças entre as empresas nacionais e as multinacionais. É preciso desfazer o mito de pensar que os estrangeiros são melhores que nós.

Denota-se que os recursos humanos não têm autonomia para avaliarem o desempenho. Quanto aos diversos sectores de actividade, existem algumas diferenças: a indústria transformadora, os bancos, o comércio e os serviços revelam uma maior apetência para a adopção de práticas de recursos humanos. A gestão de recursos humanos exerce uma influência efectiva sobre o desempenho. Se as empresas utilizarem de forma consistente e integrada as suas políticas e práticas, irão certamente influir nos resultados. É necessário continuar as investigações nesta área, pois um só estudo apresenta algumas limitações. É preciso gerir a sério as pessoas e as motivações. É preciso perceber esta realidade.

Auditoria de recursos humanos

MIGUEL RUI DA COSTA,

Vice-Presidente da Corporate Business Audit, da Siemens

 

Os recursos humanos deverão estar em todos os «cantos» de uma empresa.

A dinâmica dos mercados reflecte-se nos perfis de competência e na estrutura dos RH. Mas como avaliar a sua gestão?

Numa business audit estuda-se a actividade empresarial em geral. Não é uma fiscalização, mas sim um método de gestão que garante objectividade e independência; é um misto de auditoria e consultoria.

A Siemens, na última década, desenvolveu este método, tentando avaliar o cumprimento da missão empresarial e fornecer recomendações acerca da viabilidade económica e orientação estratégica. Uma das regras cumpridas, tal como disse o engenheiro Miguel Costa, foi «audita hoje como gostarias de ser auditado amanhã», o que garante, a priori, um serviço de qualidade.

Durante a fase de preparação, forma-se uma equipa de auditoria, escolhida de entre os colaboradores da empresa, e faz-se o planeamento do projecto. Posteriormente, vem a fase de implementação e controlo. No final, é revelado um relatório, que é, no fundo, uma base de trabalho para a fase seguinte: a implementação das recomendações, que exigem uma ponderação cuidada entre o «é» e o «deve ser». Uma business audit acarreta alguns custos... resultará na prática? Notou-se uma correlação entre a evolução dos negócios das unidades auditadas e as recomendações sugeridas.

As pessoas envolvidas numa business audit apoiam-se em especialistas, e assim se constrói uma concepção base de determinado negócio. Tentam responder a cinco perguntas-chave sobre o negócio: «Como deve ser?»; «Como é?»; «Qual o desvio?»; «Por que há esse desvio?»; «O que deverá acontecer?». Esta avaliação é benéfica para a empresa, no sentido em que são eles próprios a descobrir e a tentar corrigir alguns erros.

Perfis de competências dos profissionais da GRH

ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA

Professor no Inst. Politécnico de Setúbal

 

O que é a gestão de recursos humanos? No passado, a GRH era conduzida segundo um paradigma instrumental, assentava num discurso homogéneo onde só prevalecia one best way.

Actualmente, procura-se que assente num novo paradigma: o paradigma reflexivo, que é uma visão analítica capaz de dar conta da natureza contingencial da GRH através de abordagens tipológicas, e não classificativas. Esta mudança de paradigma implica alguns riscos.

É necessário um questionar constante para não se tornar num mero instrumento de difusão ou legitimação de interesses particulares e de discursos dominantes.

Em Portugal, existem quatro formas de estar da GRH: assumir um carácter subalterno; a procura de profissionais de GRH é induzida pela inflação de licenciados; elevada pulverização das formações de acesso à profissão; subvalorização das competências técnicas específicas.O perfil tipo procurado é desprestigiante para os gestores de RH. Não há dúvida de que é preciso mudar a forma de ver e actuar na GRH.

Gestão do stress organizacional

MARCO RAMOS

Psicólogo do IPSSO

 

Os Estados Unidos, o stress custa cerca de 150 biliões de dólares por ano às organizações industriais, em perdas de produtividade, absentismo, seguros de saúde e despesas de saúde.

Na União Europeia, 1 em cada 4 trabalhadores sofre as consequências psicofisiológicas do stress. Em Portugal, durante o ano passado, gastaram-se cerca de 600 milhões de contos em acidentes de trabalho e absentismo. Já existem alguns casos de suicídio no mundo devido ao stress. Então fará sentido gerir o stress? Os seus custos podem ser directos, no-meadamente absentismo, turnover, acidentes de trabalho e mau desempenho, ou indirectos, perda de vitalidade das organizações, erros na tomada de decisões e oportunidades de negócio perdidas.

No fundo, o stress é um desajustamento entre o indivíduo e o seu meio, no qual ele sente que lhe são colocadas exigências às quais não consegue responder. É necessário transformar este desequilíbrio em equilíbrio.

As teorias do stress organizacional destacam as características dos indivíduos para lidar com a situação e as propriedades das empresas que podem causar desajustamentos. Estes indivíduos são os mesmos que a GRH afirma serem os activos principais da empresa.

A prevenção dá seis vezes mais a ganhar que o seu custo posterior. A gestão do stress actua sobre a empresa e sobre o indivíduo. Deverá ser inscrita na cultura organizacional como uma forma de defesa e de ataque. O stress não é algo exclusivamente nefasto; é neutro e poderá acarretar efeitos positivos ou negativos, consoante a sua gestão organizacional.  GRH.

Gestão do stress organizacional

MARCO RAMOS

Psicólogo do IPSSO

 

Os Estados Unidos, o stress custa cerca de 150 biliões de dólares por ano às organizações industriais, em perdas de produtividade, absentismo, seguros de saúde e despesas de saúde.

Na União Europeia, 1 em cada 4 trabalhadores sofre as consequências psicofisiológicas do stress. Em Portugal, durante o ano passado, gastaram-se cerca de 600 milhões de contos em acidentes de trabalho e absentismo. Já existem alguns casos de suicídio no mundo devido ao stress. Então fará sentido gerir o stress? Os seus custos podem ser directos, no-meadamente absentismo, turnover, acidentes de trabalho e mau desempenho, ou indirectos, perda de vitalidade das organizações, erros na tomada de decisões e oportunidades de negócio perdidas.

No fundo, o stress é um desajustamento entre o indivíduo e o seu meio, no qual ele sente que lhe são colocadas exigências às quais não consegue responder. É necessário transformar este desequilíbrio em equilíbrio.

As teorias do stress organizacional destacam as características dos indivíduos para lidar com a situação e as propriedades das empresas que podem causar desajustamentos. Estes indivíduos são os mesmos que a GRH afirma serem os activos principais da empresa.

A prevenção dá seis vezes mais a ganhar que o seu custo posterior. A gestão do stress actua sobre a empresa e sobre o indivíduo. Deverá ser inscrita na cultura organizacional como uma forma de defesa e de ataque. O stress não é algo exclusivamente nefasto; é neutro e poderá acarretar efeitos positivos ou negativos, consoante a sua gestão organizacional.  GRH.

Gestão internacional de recursos humanos

JOSÉ BANCALEIRO

Vice-Presidente da Altitude Software

 

A Altitude Software opera mundialmente na área do u-business (Unified Business) e o seu vice-presidente diz agora de sua justiça...

No mundo da gestão, a GRH é vista como uma componente estratégica da empresa (ou deveria ser vista!). As pessoas contribuem para o sucesso dos negócios enquanto as empresas contribuírem para o seu bem-estar. Com a crescente globalização, tornou-se necessário saber gerir pessoas em qualquer parte do mundo; obviamente, isto traz algumas dificuldades. Ninguém fala a mesma língua, existem diversas culturas, não há tradição ao nível da GRH, mas todos os obstáculos são contornáveis.

A chave deste problema é a estandardização, a flexibilidade e o envolvimento. É necessário ter uma visão estratégica dos recursos humanos, e para isso são fulcrais quatro áreas: atrair, desenvolver e reter os melhores; reforçar uma cultura e ambiente estimulantes; desenvolver competências dentro da organização; ter um papel importante na criação de flexibilidade e eficácia na empresa.

As pessoas serão sempre o bem mais precioso das empresas, e deverão ser geridas como tal.



    

Ó executivedigest - Junho 2001

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