Alguns líderes são incapazes de
tomar decisões e as empresas sofrem com isso. O remédio?
A forma como eles encaram e conduzem o diálogo na organização |
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Imagine o seguinte cenário: você está na reunião trimestral da sua empresa quando surge um
colega com uma proposta para um grande investimento num novo produto. Depois de ele
terminar a sua exposição, reina o silêncio na sala. As pessoas olham para a esquerda,
para a direita ou para baixo, à espera de alguém que abra a discussão. Ninguém quer
comentar pelo menos antes de o chefe mostrar para que lado se inclina.
Finalmente, o presidente quebra o silêncio. Faz algumas perguntas para mostrar que
estudou o assunto. Mas é evidente que ele decidiu apoiar o projecto. Imediatamente os
outros participantes na reunião concordam obedientemente, tendo o cuidado de só fazer
comentários positivos. A julgar pelas aparências, parece que todos apoiam o projecto.
Mas as aparências podem ser enganosas. O chefe de uma divisão envolvida teme que o novo
produto tire recursos da sua operação. O vice-presidente de produção acha que as
previsões de vendas para o 1.º ano são exageradamente optimistas e irão deixá-lo com
um stock de produtos enorme. Outros participantes mantêm-se indiferentes, porque não
vêem como poderiam lucrar com o projecto. Mas guardam as suas reservas para si mesmos e a
reunião termina de forma inconclusiva. No decorrer dos meses seguintes, o projecto é
«estrangulado» lentamente até a morte, numa série de revisões estratégicas de
orçamento e operacionais. Não se sabe quem é o responsável pelo fracasso, mas torna-se
mais que evidente que o sentimento dos participantes era o oposto ao aparente consenso.
Enquanto conselheiro de grandes empresas e dos seus líderes, tenho testemunhado muitas
ocasiões, mesmo aos níveis mais altos, em que o silêncio «mente» e a falta de
conclusões conduz a falsas decisões. São «falsas» porque acabam por não ser
cumpridas. Depois de um quarto de século de observações directas, concluí que esses
casos de indecisão têm em si próprios uma semelhança: falha nas interacções
pessoais. As pessoas encarregadas de chegar a uma decisão e tomar as devidas
providências deixam de se empenhar e de comunicar entre si. Intimidadas pela hierarquia e
constrangidas pela formalidade e pela falta de confiança, representam os seus papéis sem
convicção. Na ausência de um compromisso emocional, os executivos que devem pôr em
marcha o plano não agem de maneira decisiva.
Essas interacções imperfeitas não costumam ocorrer isoladamente. A incapacidade para
tomar decisões e agir está alicerçada na cultura empresarial, que parece ser, para a
maior parte das pessoas, impenetrável a mudanças. Aqui a palavra-chave é «parece»,
porque, na verdade, os líderes criam uma cultura de indecisão que pode ser rompida por
eles próprios. O principal instrumento de que dispõem é constituído pelas
interacções humanas os diálogos , por meio das quais as hipóteses são
questionadas ou não, as informações são trocadas ou sonegadas e as discordâncias vêm
ou não à superfície. O diálogo é a unidade básica de trabalho numa organização. A
sua qualidade determina como as pessoas colhem e processam as informações, como tomam as
decisões, como se sentem em relação umas às outras e como vêem os resultados das
medidas tomadas. O diálogo pode conduzir a novas ideias, como vantagem competitiva, pois
é o factor isolado mais importante numa empresa, logo a seguir à produtividade e ao
desenvolvimento do trabalhador e do conhecimento.
O tom e o conteúdo do diálogo moldam os comportamentos e as crenças dos indivíduos
mais depressa e de forma mais permanente que qualquer sistema de prémios, mudança
estrutural ou declaração de visão que conheço.
O rompimento de uma cultura de indecisão requer um líder que possa gerar honestidade
intelectual e confiança nas conexões interpessoais. Utilizando cada reunião com os seus
funcionários como uma oportunidade para modelar um diálogo aberto, honesto e decisivo, o
líder define o tom para toda a organização. Mas definir o tom é somente o primeiro
passo. Para transformar uma cultura de indecisão, os líderes também precisam garantir
que os «organismos operacionais sociais» da organização
isto é, as reuniões das administrações, as revisões de orçamentos e
estratégias e outras situações nas quais as pessoas fazem negócios tenham um
diálogo honesto. Esses mecanismos definem o cenário. Praticados com consistência,
estabelecem linhas claras de responsabilidade para se chegar às decisões e executá-las.
A execução e o feedback são os passos finais para a criação de uma cultura de
decisão. Os líderes de sucesso usam estes dois instrumentos para premiar os
trabalhadores de alto desempenho, aconselhar os que se esforçam e redireccionar o
comportamento dos que impedem o progresso da empresa.
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| Identificador de DIÁLOGOS |
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Diálogo
hesitante
Sintoma: A confusão predomina. A reunião termina sem a definição do
próximo passo. Mais tarde ninguém poderá ser responsabilizado quando as metas não
forem atingidas.
Remédio: Concluir a reunião, assegurando-se de que todos sabem quem
fará o quê e quando. Faça isso por escrito e seja específico.Obstáculos à informação
Sintoma: Incapacidade de obtenção de todas as informações relevantes.
Este padrão ocorre repetidamente.
Remédio: Assegure-se de que as pessoas certas participam na reunião.
Quando as informações que faltarem forem descobertas, divulgue-as imediatamente. Use o
aconselhamento e as sanções para corrigir a sonegação de informações.
Perspectivas restritas
Sintoma: As pessoas agarram-se a visões estreitas e aos próprios
interesses e deixam de reconhecer que as outras têm interesses válidos.
Remédio: Insista até ter a certeza de que todos os lados da questão
foram apresentados. Reafirme repetidamente a finalidade comum, para manter todos no
«grande quadro». Apresente alternativas.
Livre para todos
Sintoma: Por incapacidade para dirigir o fluxo da discussão, o líder
permite os comportamentos negativos. Os «chantagistas» mantêm todo o grupo como refém
até que os outros concordem com eles. Os «marginais» saem pela tangente, repetem a
história: «Quando eu fiz isso há 10 anos...» ou entram em detalhes desnecessários. Os
«mentirosos silenciosos» não expressam as suas verdadeiras opiniões ou concordam com
coisas que não têm intenção de fazer, e os «divisionistas» criam brechas no grupo,
pedindo apoio para o seu ponto de vista, ou mantêm discussões paralelas durante a
reunião.
Remédio: O líder precisa de dizer repetidamente quais os comportamentos
aceitáveis e punir quem persistir com acções negativas. Caso as sanções leves não
dêem resultado, o líder precisa estar disposto a eliminar o transgressor do grupo.
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Tudo começa com o diálogo
As pesquisas sobre empresas bem sucedidas focalizam com frequência os seus produtos, os
modelos de negócios ou os seus pontos fortes na operação:
o sistema operacional Windows, da Microsoft, a personalização em massa da
Dell, a
perícia logística da Wal-Mart. Contudo, produtos e vantagens operacionais não são o
que realmente distingue as organizações de maior sucesso todos eles podem ser
comprados ou imitados. O que não pode ser copiado facilmente são os diálogos decisivos
e os seus vínculos com a execução e com o feedback. Esses factores constituem a
vantagem competitiva mais duradoura de uma empresa. E dependem do tipo de diálogo
adoptado pelo líder, que influencia toda a organização.
O diálogo decisivo é mais fácil de reconhecer que de definir. Encoraja a eficácia e a
criatividade e torna as ideias aparentemente fragmentadas e desconexas em ideias
coerentes. Permite que as tensões venham à superfície e resolve-as por meio da
articulação de cada ponto de vista relevante. Como esse diálogo é um processo mais de
indagação intelectual que de defesa uma busca da verdade, e não uma competição
, todos se sentem emocionalmente comprometidos com o resultado.
As empresas são seres vivos
Há pouco tempo observei como o poder do diálogo de um líder moldou a cultura de uma
empresa. O cenário era a sede de uma grande multinacional americana. O gestor de uma das
suas maiores unidades de negócios fazia uma apresentação de estratégia ao presidente e
a alguns dos seus subordinados directos. Parecendo confiante, por vezes quase arrogante, o
gestor expôs as suas ideias para que a sua divisão conseguisse passar de terceira para
primeira. Era um plano ambicioso, que dependia da rápida conquista de uma considerável
participação de mercado na Alemanha. Era lá que estava sediada a sua concorrente,
quatro vezes maior. O presidente cumprimentou-o pela apresentação estimulante e
visionária e a seguir iniciou um diálogo para testar se o plano era realista.
«Como é que exactamente conseguirá esses ganhos?», perguntou. «Que alternativas
considerou? Que clientes planeia conquistar?»
O gestor não tinha analisado a situação de uma forma tão exaustiva.
«Definiu as necessidades dos clientes de maneiras novas e únicas? Quantos vendedores tem
a sua divisão?», continuou a perguntar.
«Dez», respondeu o gerente.
«E o seu maior concorrente?»
«Duzentos», foi a tímida resposta.
O presidente continuou a pressionar: «Quem é que vai dirigir as operações na
Alemanha?»
Caso a conversa tivesse sido interrompida naquela altura, o presidente teria somente
humilhado e desencorajado o gerente e passado aos outros participantes o recado de que os
riscos de «pensar grande» eram inaceitavelmente altos. Mas ele não estava interessado
em «matar» a estratégia e desmoralizar a equipa. O presidente queria injectar algum
realismo no diálogo enquanto colocava as questões. Falando de forma directa, sem
irritação ou indelicadeza, disse ao gestor que seria preciso algo mais que boas ideias
para superar um formidável concorrente alemão no seu território. «Em vez de um assalto
frontal», sugeriu, «por que não procurar os pontos fracos da concorrência e vencer em
velocidade de execução? Onde estão as falhas na linha de produtos do concorrente?
Podemos apresentar algo de inovador, capaz de preenchê-las? Quais os clientes compradores
desse produto? Por que não concentrarmo-nos neles? Em vez de ter por objectivo ganhos
gerais de participação, deverá procurar segmentar de forma diferente o mercado.»
De um momento para o outro, o que parecia ser um beco sem saída transformou-se num
turbilhão de ideias e, no final da reunião, foi decidido que o gestor repensaria a
estratégia e voltaria 90 dias depois com uma alternativa mais realista. Assim, o gestor,
participante vital, cuja proposta havia sido totalmente rejeitada deixou a sala
estimulado, desafiado e mais focalizado na sua tarefa.
Pense no que aconteceu. Embora não parecesse óbvio, o principal executivo da empresa
não estava a afirmar a sua autoridade. Ele queria garantir que as realidades competitivas
não fossem encobertas e aconselhar os participantes sobre perspicácia nos negócios e
capacidade organizacional, bem como sobre a arte de fazer as perguntas certas.
O diálogo afectou as atitudes e o comportamento das pessoas: deixaram a sala convencidas
de que deveriam procurar oportunidades de maneiras pouco convencionais, além de estarem
preparadas para responder às inevitáveis perguntas difíceis. Também sabiam que o CEO
estava a seu lado e convenceram-se ainda mais de que o crescimento era possível e a
acção necessária. E aconteceu outra coisa: começaram a adoptar o tom do presidente nas
reuniões. Por exemplo: ao reunir-se com os seus assessores directos para explicar a nova
abordagem ao mercado, o gestor da unidade alemã fez perguntas precisas e penetrantes ao
seu chefe de vendas e ao responsável pelo desenvolvimento de produtos. Elas visavam
directamente pôr em acção a nova estratégia. Ele tinha assimilado o estilo do CEO de
se relacionar com os outros, bem como a sua maneira de procurar, filtrar e analisar as
informações. Toda a unidade se tornou mais determinada e cheia de energia.
O presidente não deixou o assunto «morrer». Enviou uma carta manuscrita ao gestor da
unidade contendo a essência do diálogo e as providências a serem tomadas. Noventa dias
depois, reuniram-se novamente para discutirem a estratégia já revista.
Transformar o diálogo em acção
O cenário em que ocorre o diálogo é tão importante quanto o próprio
diálogo. Os mecanismos operacionais sociais de culturas empresariais decisivas apresentam
comportamentos marcados por quatro características: abertura, franqueza, informalidade e
conclusão.
A «abertura» significa que o resultado não é predeterminado. Existe uma busca honesta
de alternativas e novas descobertas. Perguntas como «De que nos estamos a esquecer?»
atraem a atenção e sinalizam a disposição do líder para ouvir todos os
intervenientes. Os líderes criam uma atmosfera de segurança que permite discussões
animadas, aprendizado em grupo e confiança.
A franqueza é ligeiramente diferente. É a disposição para dizer o indizível, expor
compromissos não cumpridos, articular os conflitos que solapam o consenso aparente. A
«franqueza» significa que as pessoas expressam as suas verdadeiras opiniões, e não o
que elas pensam que os membros da equipa devam dizer.
A franqueza ajuda a eliminar as «mentiras silenciosas» e a controlar os vetos que
ocorrem quando as pessoas concordam com coisas sobre as quais não têm intenção de
agir. Evita as repetições de trabalho e reconsiderações de decisões que reduzem a
produtividade.
A formalidade suprime a franqueza.
A informalidade encoraja-a. Apresentações e comentários inflexíveis e preconcebidos
sinalizam que toda a reunião foi cuidadosamente prevista e orquestrada. A informalidade
tem efeito oposto. Reduz as atitudes defensivas. As pessoas sentem--se à vontade para
fazerem perguntas e reagirem de forma autêntica.
Se a informalidade descontrai o ambiente, a «conclusão» impõe disciplina. Significa
que, no fim da reunião, as pessoas sabem exactamente o que se espera que façam. O
encerramento produz determinação, atribuindo responsabilidades e prazos às pessoas em
foro aberto. Testa a força interior e os recursos intelectuais do líder. A falta de
conclusão, associada à falta de sanções, é a principal razão para uma cultura de
indecisão. Um mecanismo operacional social vigoroso inclui sempre estas quatro
características.
Avaliar a cultura organizacional
Quando Dick Brown chegou à Electronic Data Systems (EDS), no início de 1999, decidiu
criar uma cultura que contribuísse com algo mais que «conversa fiada» para os ideais de
colaboração, abertura e determinação. Era uma tarefa difícil. A EDS era conhecida por
ter nas suas fileiras pessoal brilhante e agressivo, mas os funcionários tinham a
reputação de competir entre si com a mesma frequência com que colaboravam uns com os
outros. A organização tinha uma cultura de «heróis solitários». As unidades
operacionais tinham pouco ou nenhum incentivo para trocar informações ou cooperar entre
si. Havia poucas sanções para comportamentos «solitários» e para o não cumprimento
das metas de desempenho. E a indecisão predominava. Como disse um veterano da empresa:
«Reuniões, reuniões e mais reuniões... As pessoas não podiam nem queriam tomar
decisões. Elas não tinham de fazê-lo. Não havia responsabilidade.» A EDS estava a
perder terreno nas vendas. As receitas não cresciam, os lucros e os preços das acções
da empresa estavam a decair.
Um princípio central da filosofia de gestão de Brown é que «os líderes recebem o
comportamento que toleram». Pouco depois da sua chegada à EDS, Brown criou seis
mecanismos que expressavam como ele não aceitaria a antiga cultura de individualismo
excessivo e sonegação de informações. Um dos mecanismos foi baptizado como
«convocação ao desempenho». Uma vez por mês, os 50 ou 100 mais altos executivos da
empresa no mundo participam de uma conferência na qual os números e as actividades
críticas do mês anterior são revistos detalhadamente. Transparência e informações
simultâneas são regras não se pode ocultar informações. Todos sabem quem está
a cumprir as metas, quem está à frente das projecções e quem está atrasado. Os
atrasados precisam de dar explicações e dizer como planeiam recuperar o atraso. Não
basta um gestor dizer que está a avaliar, a rever ou a analisar um problema. Para
Brown,
essas não são palavras de quem está a agir, mas de alguém que se está a preparar para
agir. Usá-las diante dele é um convite a duas perguntas: «Quando terminar a sua
análise, o que irá fazer? E quando?» Para os executivos da EDS, a única resposta
satisfatória é tomar uma decisão e executá-la.
As convocações ao desempenho também são um mecanismo para a exposição e a
resolução dos conflitos inevitáveis numa grande organização, em particular no caso de
vendas cruzadas para acelerar o crescimento das receitas. Por exemplo, duas unidades podem
estar a perseguir o mesmo cliente, ou um cliente atendido por uma unidade pode ter sido
adquirido por um cliente atendido por outra. Que unidade deverá liderar a busca de novos
negócios? Que unidade deverá atender à empresa resultante da fusão? É muito
importante resolver essas questões. Deixar que azedem sem uma solução não só acaba
com a energia emocional mas também reduz a capacidade de a organização agir. A falta de
velocidade torna-se numa desvantagem competitiva.
Brown encoraja as pessoas a trazerem esses conflitos à superfície, porque os vê como um
sinal de saúde organizacional e porque eles constituem uma oportunidade para demonstrar o
estilo de diálogo que defende. Procura criar um ambiente seguro para a discordância,
lembrando aos funcionários que o conflito não é pessoal. Os conflitos fazem parte de
qualquer organização global. E para Brown é essencial que cada um pense em termos da
empresa inteira, e não apenas de uma pequena parte dela. Em vez de buscar a solução
favorável à sua unidade, o funcionário irá procurar a melhor solução para a EDS e
para os seus accionistas. Parece simples... até mesmo óbvio.
É claro que nenhum líder pode ou deve comparecer a todas as reuniões, resolver todos os
conflitos ou tomar todas as decisões. Mas por meio da criação de mecanismos
operacionais sociais que promovam um diálogo livre e produtivo os líderes influenciam a
maneira como as pessoas executam essas tarefas.
Modelo adaptável a qualquer
empresa
Outra empresa que utiliza mecanismos para criar uma cultura decisiva é a farmacêutica
Pharmacia.
Dois anos depois da fusão com a Upjohn, em 1995, Fred Hassen, CEO da Pharmacia, começou
a criar uma cultura inteiramente nova. A organização que ele antevia seria de
colaboração, focalizada nos clientes, mas ligeira. Ela combinaria os talentos para
desenvolver medicamentos líderes de mercado. Principal mecanismo para promover a
colaboração: os líderes de várias unidades e funções deveriam empenhar-se em
diálogos frequentes e construtivos.
A corrida da empresa para desenvolver uma nova geração de antibióticos deu à
administração da Pharmacia a oportunidade de testar o sucesso dos seus esforços para a
criação dessa cultura. O Dr. Göran Endo, responsável por pesquisa e desenvolvimento, e
Carrie Cox, gestora global de negócios, criaram em conjunto um mecanismo operacional
social reunindo alguns dos principais cientistas, clínicos e profissionais de marketing
da empresa. Reunir regularmente as três funções já era um passo ousado. Ao substituir
uma abordagem descontínua por uma que tornava cientistas, clínicos e profissionais de
vendas conjuntamente responsáveis por todo o fluxo de desenvolvimento e marketing, os
dois líderes visavam o desenvolvimento de medicamentos que melhor satisfizessem as
necessidades dos pacientes, que tivessem potencial de receitas mais alto e mais rápido,
constituindo uma vantagem competitiva. Eles também queriam criar um modelo para futuros
esforços de colaboração.
Nas primeiras vezes em que o grupo de desenvolvimento se reuniu, eram focalizadas quase
que exclusivamente as diferenças entre os membros, que eram consideráveis. Sem cair em
clichês, é seguro dizer que cientistas, clínicos e profissionais de marketing tendem a
ter maneiras diferentes de falar, pensar e se relacionar. E cada um tendia a defender
aquilo que considerava importante, em vez dos interesses dos accionistas e dos clientes.
Foi nesse ponto que Endo e Cox se encarregaram do diálogo, lembrando que era importante o
bom entendimento mútuo, mas era ainda mais importante produzir um medicamento que
satisfizesse as necessidades dos pacientes e superasse a concorrência.
Actuando em conjunto, os dois líderes canalizaram a conversa para um diálogo produtivo,
focalizado numa tarefa comum. Eles comunicaram o que sabiam a respeito de desenvolvimento
e comercialização de produtos farmacêuticos e demonstraram como os cientistas poderiam
pensar um pouco como profissionais de marketing, e estes como cientistas. Aceitaram o
desafio emocional de solucionar conflitos abertamente, discordando sem animosidade e sem
perder de vista o objectivo comum.
Os cientistas mudaram o seu ponto de vista e o resultado foi o Zyvox, uma das maiores
histórias de sucesso em produtos farmacêuticos dos últimos anos.
O produto tornou-se no símbolo da campanha da Pharmacia por uma cultura caracterizada
pela colaboração transversal e pela execução rápida. Através do diálogo, o grupo
criou um produto que os cientistas, os clínicos ou os profissionais de marketing teriam
imaginado ou executado isoladamente.
Execução e retorno de informação
A execução completa está no DNA de todas as culturas decisivas. Uma cultura de
indecisão muda quando as pessoas são forçadas a ser sempre directas. E poucos
mecanismos encorajam esse comportamento de forma mais eficaz que as avaliações de
desempenho e de remuneração.
Na EDS, Dick Brown desenvolveu um processo de avaliação e revisão que força os
directores a um diálogo franco com os seus subordinados. Na empresa, todos são
classificados de acordo com o seu desempenho em comparação com os seus pares. O processo
é uma das características controversas da liderança de Dick Brown alguns
funcionários vêem este processo como uma forma de separar vencedores de vencidos.
Brown insiste que esse não é o objectivo do sistema de classificação. Ele explica que
é a maneira mais correcta de premiar os funcionários com melhor desempenho e mostrar aos
«retardatários» que precisam de melhorar. Mas o sistema necessita do tipo certo de
diálogo para poder funcionar da maneira pretendida e servir o seu objectivo de
desenvolver talentos.
Brown recorda um encontro que teve pouco depois da divulgação do primeiro conjunto de
classificações. Um funcionário, que considerava ter um dos melhores desempenhos na
EDS,
ficou chocado ao constatar que estava mais perto da base da lista que do topo. «Como é
que isto é possível?», perguntou. «Tive este ano um desempenho tão bom quanto o do
ano passado, quando tive uma das mais altas classificações.» Brown respondeu que podia
pensar em duas explicações possíveis. A primeira era que o funcionário não era tão
bom no seu trabalho quanto pensava ser. A segunda possibilidade era que, mesmo que ele
estivesse a fazer um trabalho tão bom quanto o fizera no ano anterior, os seus pares
estavam a fazer melhor. «Se você permanece o mesmo», concluiu Brown, «está a ficar
para trás. E não pode.»
Brown compreende por que um director pode sentir-se tentado a evitar uma conversa tão
desagradável. Dar um retorno negativo é um teste da força de um líder. E faz parte
daquilo que Brown chama de «pesada carga da liderança». «Evitá-la», diz, «sentencia
a organização à mediocridade.» Além disso, ao não dar um retorno sincero, os
líderes enganam os subordinados, privando-os das informações para poderem melhorar.
O retorno deve ser franco, construtivo, totalmente focalizado no desempenho
comportamental, responsabilidade e execução. Uma coisa que ele não pode ser é
surpreendente. «Um líder deve construir a sua avaliação durante o ano inteiro», diz
Brown, «e dá-la o ano inteiro. Você tem 20, 30 ou 60 oportunidades por ano para
comunicar as suas observações. Não as perca! Se no fim do ano um funcionário ficar
realmente surpreendido com aquilo que você tem a dizer, é uma falha da sua liderança.»
Em última análise, mudar uma cultura de indecisão é uma questão de liderança, de
fazer perguntas difíceis: até que ponto os seus mecanismos operacionais sociais são
sadios e eficazes? Até que ponto estão interligados? Eles contam com os participantes
certos e são realizados com a frequência correcta? Têm um ritmo e operam de forma
consistente? A execução total está implícita neles? Os prémios e as sanções estão
ligados aos resultados do diálogo decisivo? Mais importante: até que ponto o diálogo
nesses moldes é produtivo? O diálogo é marcado por abertura, franqueza, informalidade e
conclusão?
Transformar uma cultura de indecisão é uma tarefa hercúlea e difícil, que exige imensa
aptidão para ouvir, perspicácia para negociar e toda a experiência operacional que um
líder empresarial puder implementar. Também requer coragem emocional, capacidade de
execução e força interior. Fazer as perguntas certas, identificar e solucionar os
conflitos, dar um retorno franco e construtivo e diferenciar as pessoas com sanções e
prémios nunca é fácil. Na maioria das vezes, é mesmo desagradável. Não é de admirar
que muitos executivos evitem a tarefa.
A curto prazo, pouparam-se a um considerável desgaste emocional. Mas a sua evasão
estabelece o tom para uma organização incapaz de trocar informações, tomar decisões
ou enfrentar e solucionar conflitos. Os que voltam as costas a tudo isto não entendem a
essência da liderança eficaz.
Os líderes com força para insistir no
diálogo honesto e na execução total serão recompensados não só com uma organização
decisiva, mas também com uma força de trabalho estimulada, dotada de poderes e
comprometida. ed |