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LIDERAR COM O CORAÇÃO Para NOEL TICHY, a liderança deve combinar a razão com a emoção. ou seja, os líderes devem ter uma «cabeça dura e um coração mole». veja porquê nesta entrevista Por Eduardo Ferraz |
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| Presidentes de grandes
companhias americanas, como Jack Welch, da General
Electric, ou Jacques Nasser, da Ford, param sempre (e pagam muito
bem) para ouvir o que o americano Noel Tichy, consultor e professor
da Universidade de Michigan, tem a dizer. Autor de vários livros,
entre eles The Leadership Engine, considerado pela Business Week um
dos 10 melhores livros de negócios de 1997, Tichy é um dos mais
respeitados gurus quando o assunto é liderança e transformação
organizacional. Nesta entrevista, ele fala dos novos desafios que os
líderes enfrentam no mundo digital e, parafraseando Welch, diz que
todos os líderes precisam de «ser cabeça dura e coração
mole». Qual deve ser a preocupação básica da liderança no novo milénio? O bem mais valioso neste novo milénio é o cérebro das pessoas e a sua energia emocional. Este é um mundo de capital intelectual. Portanto, você tem de motivar as pessoas com uma visão empolgante e liderá-las. A maior parte do trabalho vai ser intelectual. A hierarquia rígida e a liderança tradicional vão falhar. Tem de haver uma liderança informal, baseada em ideias e valores. As empresas vencedoras serão as teaching organizations, empresas voltadas para o ensino. Learning organizations, viradas para a aprendizagem, serão insuficientes: você tem de agarrar o conhecimento e ensiná-lo aos outros para desenvolver líderes em todos os níveis. E só consegue fazer isso com ideias firmes sobre como a empresa vai ganhar dinheiro no mercado, com um conjunto de valores para motivar os empregados e um foco contínuo na energia emocional das pessoas. Para lidar com essas mudanças, os futuros líderes necessitarão de qualidades diferentes das actuais? Se olhar para a história, vai ver que os grandes líderes sempre tiveram as mesmas qualidades. Eles tomaram a responsabilidade de construir a próxima geração de líderes. Só uma pequena minoria dos executivos conseguiu fazê-lo, e é por isso que temos tantas empresas más pelo mundo fora. Muitas são medíocres, como a General Motors (a GM foi cliente de Tichy). Na questão da liderança, não acho que vamos descobrir exactamente novos paradigmas. O que vamos ver é que a Internet e a digitalização tornarão difícil o encobrimento de ineficiências ou a lentidão burocrática. A Internet tornou a liderança mais transparente. Vamos acelerar o processo em que se descobre quem são os vencedores e os perdedores. E quem serão os vencedores? Os vencedores serão muito parecidos. Eles vão ter escala, velocidade, serão digitalizados e terão um foco muito grande no desenvolvimento de líderes em todos os níveis da organização. Porque, repito, o ganho vai estar cada vez mais relacionado com o capital intelectual, e não com o capital tradicional. E existem dois caminhos para se tornar um vencedor. Um é o que chamo «hipertransformação». Tome o exemplo de velhos dinossauros, como a GM. O seu valor de mercado é de sete mil milhões de contos, enquanto o da General Electric é de 126,5 mil milhões. A GM é a maior empresa do mundo em volume de negócios — 40,6 mil milhões de contos no ano passado, contra 25,6 mil milhões de contos da GE. A Ariba, uma nova empresa na área de sistemas de B2B, vale o mesmo que a GM. Definitivamente, a GM precisa de passar por uma «hipertransformação» para se tornar uma vencedora. E o outro caminho para vencer? O outro caminho é ser uma empresa principiante, mas de hipercrescimento, como a Amazon, a Yahoo! ou a Ariba. Estas empresas podem falhar ao longo do caminho para a conquista de uma escala que a Cisco, a Sun Microsystems ou a Microsoft conseguiram. Existe um caminho de hipercrescimento a ser percorrido. No fim das contas, hoje a GE e a Cisco parecem-se mais uma com a outra do que a GE com a GM ou a Cisco com a Yahoo! A minha visão é de que os vencedores do século xxi, além de serem digitais, de terem escala para se sustentarem, de serem ágeis e rápidos, terão de dar uma ênfase muito grande para se tornarem organizações voltadas para o ensino, como a GE. O seu presidente, Jack Welch, passa muito tempo a ensinar os outros a tornarem--se líderes. A sua agenda reflecte isso: ele aparece em Crotonville, o centro de formação da GE, no estado de Nova Iorque, quase todas as semanas. Faz um acompanhamento pessoal dos executivos de cúpula da empresa durante o ano inteiro. Ele acredita que você alcança o sucesso construindo uma capacidade de liderança em toda a organização. E crê firmemente que o próprio presidente se deve incumbir dessa tarefa. John Chambers, da Cisco, faz a mesma coisa, à sua maneira. Dentro de poucos meses, Jack Welch vai reformar-se. Ele é substituível? Ele formou dentro da empresa um fortíssimo «banco de reservas», um bom número de líderes com preparação para assumir a presidência. Nenhuma outra instituição no mundo conseguiu um banco como esse. Havia sete ou oito candidatos para o seu cargo, agora são três: Robert Nardelli, presidente da divisão de energia, Jim McNerney, presidente da divisão de turbinas de avião, e Jeff Immelt, presidente da divisão de equipamentos médicos. E, se pensar noutras blue chips, como IBM, Kodak, Merck, Hewlett-Packard e AT&T, vai ver que todas precisaram de procurar os seus presidentes no mercado. Mas a substituição de Welch pode afectar a companhia? Welch deixa na empresa não só liderança no topo, mas liderança em todos os níveis da organização. Há 20 anos ele começou a revitalizar e a construir uma infra-estrutura de formação que ninguém conseguiu igualar. Crotonville é só um pequeno pedaço dessa história, que eu conduzi em meados dos anos 80. Dez mil pessoas frequentam-na anualmente, desde recém-formados até executivos seniores, que passam por formações de liderança que duram de uma a quatro semanas. O maior esforço de formação no mundo, hoje, é o da «qualidade seis sigma», originalmente desenvolvido na Motorola, que está em andamento na GE. Actualmente a GE tem 10 mil professores «cinturão negro» ensinando em tempo integral. Welch poderia ter sido atropelado por um camião há um ano e a companhia teria continuado a funcionar bem. A GE está em óptima forma. Ela vive um momento de crescimento, e nada a fará parar hoje. A questão, porém, é se daqui a dois anos o próximo líder da empresa vai ter a capacidade de dar o grande passo seguinte. Qual foi o seu papel quando trabalhou com a Ford? Eu ajudei-os a criar uma mentalidade de ensino no trabalho. Jac Nasser e o seu pessoal estão comprometidos em tornar a Ford uma teaching organization, uma empresa que desenvolve líderes, em que líderes ensinam líderes por toda a organização. Todos os seus 100 mil funcionários vão passar por esses programas. Eles estão no processo de mudança de uma empresa de produtos para uma empresa voltada para o consumidor, que fabrica automóveis e peças e oferece serviços. Essa é uma jornada longa, como foi na GE. E a Ford ainda está nos primeiros passos. De que modo é que o problema dos
pneus pode afectar a Ford? Acha que Nasser pode cair? |
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Condensado de Exame (1 de Novembro de 2000). © 2000 by Editora Abril. Todos os direitos reservados. |
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